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sexta-feira, 24 de março de 2023

REPÚBLICA VELHA OU PRIMEIRA REPÚBLICA (1889-1930)

O GOLPE QUE DEU ORIGEM À REPÚBLICA

O golpe de 15 de novembro de 1889 não foi fruto de uma revolução popular, mas de militares  apoiados por uma parte da elite agrária, revoltada por não ser indenizada após o fim da escravidão. O povo não odiava o imperador e nunca foi consultado para saber se queria ou não a república. No manhã do dia 15 de novembro, a multidão que assistiu ao movimento militar no Campo de Santana pensou que era algum exercício ou desfile. Como a comunicação era lenta, ninguém sabia que um golpe político estava em andamento. Inicialmente, o marechal Deodoro da Fonseca saiu de casa na manhã daquele dia com o objetivo de derrubar o Gabinete Ministerial do Visconde de Ouro Preto e não o Trono, pois era amigo do imperador e se dizia monarquista. Essa é apenas uma parte de uma sucessão de fatos que culminaram no golpe republicano.

PRINCIPAIS CAUSAS DO GOLPE REPUBLICANO
1 - A QUESTÃO MILITAR: O Exército vs. Guarda Nacional: Durante o período da Regência (1831 a 1841) e mesmo durante uma parte do Segundo Reinado, a principal força militar era a Guarda Nacional...era uma milícia  composta por cidadãos comuns sob o comando dos grandes fazendeiros (que ficaram mais conhecidos como “coronéis"). O Exército tinha pouca expressão e só veio a ser a principal força militar após a Guerra do Paraguai. Entretanto, o Parlamento daquela época, formado em sua maioria pela elite agrária, preferia valorizar a Guarda Nacional porque era mais fácil de controlar. Na prática, o Exército sentia-se desvalorizado e sem apoio político. O parlamento considerava o Exército como uma potencial ameaça, pois poderiam facilmente tomar o poder. Os oficiais que haviam liderado tropas em batalhas decisivas eram preteridos nas decisões políticas, que permaneciam nas mãos dos civis. Os militares estavam proibidos de criticar ações do governo ou qualquer questão que considerassem injusta. Quem os prendia era o ministro da guerra, que geralmente era um civil, algo que era inaceitável para os militares daquela época. Os militares queriam o  direito de se expressar na imprensa como cidadãos, enquanto o Ministério da Guerra tratava qualquer opinião pública como ato de indisciplina e quebra de hierarquia.
Além disso, queriam melhores salários, planos de carreira e uma melhor definição de seu papel na sociedade. Destacaram-se dois casos de prisão:
a) a do Tenente-Coronel Sena Madureira, por defender publicamente a abolição da escravidão e por receber o jangadeiro Dragão do Mar (líder abolicionista) em uma unidade militar.
b) a do coronel Coronel Cunha Matos, por ter defendido a sua honra em um jornal, respondendo críticas feitas por um político no Parlamento.
A prisão destes oficiais era interpretada como uma perseguição da "elite política" contra a "classe militar". Esse clima de "nós contra eles" foi o que uniu o Exército em torno da ideia de derrubar a Monarquia. O imperador, pela Constituição, não podia criar leis nem impor sua vontade, pois a monarquia era parlamentar e não absolutista, ou seja, ele só atuava naquilo que a Constituição o permitia, através do poder moderador. Embora Dom Pedro II fosse admirado e respeitado pela maioria do povo, uma parte dos militares considerava a monarquia como um regime fraco. A solução estaria em um regime republicano autoritário, preferencialmente sob o comando de militares. Para piorar, poucos dias antes do golpe, o último gabinete ministerial (liderado pelo Visconde de Ouro Preto) planejava fortalecer a Guarda Nacional e as forças policiais locais como um contrapeso ao Exército. Para os militares, isso era um insulto e um sinal de que deveriam agir imediatamente.
2 - O Positivismo no Exército: O positivismo foi a principal doutrina que deu sustentação ideológica e justificativa moral para o golpe. Uma das bases positivistas é a defesa de um governo racional-técnico-científico, o qual governaria através de um planejamento central comandado por especialistas e não por políticos considerados  demagogos e corruptos.
-A Ideia da Ordem e do Progresso: A república positivista teria que ser forte o suficiente para impor a ordem, sem a qual a sociedade mergulharia em revoltas populares e brigas de oligarquias, situação que impediria o  alcance do Progresso. O positivismo é o criador do que chamamos hoje de Tecnocracia — a ideia de que o governo deve ser feito por uma elite intelectual. Muitos oficiais do Exército identificavam-se com essa "elite intelectual". Na Academia Militar, os cadetes não aprendiam apenas táticas de guerra, mas também matemática, física, astronomia, etc. Enquanto os políticos eram vistos como "corruptos" e a monarquia como "ultrapassada", o Exército se sentia na obrigação de ser o "Poder Moderador" científico, o qual saberia como guiar o povo ao progresso.
No Brasil, embora a República fosse um consenso absoluto entre os positivistas, o melhor caminho para chegar à "ordem" os dividia: alguns queriam uma ditadura, outros concordavam com um regime com Constituição e Legislativo, desde que o Executivo fosse forte o suficiente para manter a ordem. O que os unia era a crença de que a razão e ciência deveriam orientar o Estado e não as negociações dos partidos políticos. O governo deveria ser voltado para o povo, mas não pelo povo.
Para os positivistas, monarquia parlamentar era sinônimo de atraso e república era de progresso. Ironicamente, os dois países mais poderosos e industrializados do mundo naquele momento eram duas monarquias parlamentares: O Reino Unido e a Alemanha.
No Brasil, essa "obsessão" contra a monarquia levou os militares a derrubarem um governo que havia conseguido pacificar o país, manter unido o  território, derrotar o Paraguai, manter a economia estabilizada com inflação baixa, romper relações com o Reino Unido e abolir a escravidão sem guerra civil. No momento em que pretendia indenizar os escravos, modernizar a política e iniciar a industrialização, a monarquia foi derrubada para dar lugar a um regime que até hoje mostrou-se instável, marcado por diversos golpes, rebeliões sangrentas, guerra, golpes, contragolpes, corrupção desenfreada, privilégios, crises econômicas e ditaduras.

3. O movimento republicano: fundado em 1870, o Partido Republicano queria uma república semelhante ao modelo dos Estados Unidos (presidencialismo, três poderes de Estado e federalismo). No mais, queriam mais liberdade de ação nas províncias, a qual era dificultada pela interferência do imperador na escolha dos governadores. O monarca agia no sentido de tentar impedir a expansão do poder das oligarquias provinciais. Os republicanos não conquistaram a maioria do povo e tinham pouca representação no Parlamento. Era um movimento de elite. 

4. A Questão Religiosa: Para um melhor entendimento, precisamos explicar que a monarquia brasileira havia herdado da Coroa portuguesa dois antigos acordos com a Santa Sé, conhecidos como Padroado e  Beneplácito. Através do Padroado, o Papa concedia ao monarca o direito de administrar a Igreja em seus territórios. Em troca, o Estado assumia a responsabilidade de financiar, proteger e promover a expansão da fé católica, tornando o clero, na prática, parte da estrutura administrativa estatal. Já o Beneplácito dava ao imperador o direito de decidir se as ordens e decretos papais poderiam ou não ser aplicados no Brasil. Isso significava que a monarquia tinha o poder de aprovar ou vetar as ordens de Roma para garantir que os interesses da Coroa prevalecessem sobre os da Igreja. Na prática, era o poder civil controlando o poder religioso. A crise com a Igreja começou quando o Papa Pio IX publicou a bula Syllabus, proibindo que católicos fizessem parte da Maçonaria. No Brasil, a elite política, os ministros e até muitos padres eram maçons. O próprio imperador, embora não fosse, era um entusiasta e defensor da ordem. Sendo assim, Dom Pedro II vetou essa ordem papal. Entretanto, dois bispos brasileiros (Dom Vital em Recife e Dom Macedo Costa em Belém) decidiram obedecer ao Papa e puniram católicos  maçons. O governo exigiu que os bispos recuassem; diante da recusa, eles foram presos em 1874 e anistiados em 1875. Essas prisões geraram desgaste na imagem do Império, pois muitos católicos passaram a ver o governo como excessivamente interventor nos assuntos da Igreja. Embora a Igreja não tenha liderado nem participado do golpe, esse conflito contribuiu para enfraquecer um dos apoios tradicionais do regime.

5.Os Boatos e o desfecho do Golpe: são armas utilizadas pelos que querem tomar ou manter o poder. São armas de desestabilização psicológica e uma das ferramentas mais eficazes para preparar o terreno para golpes, revoltas e tomadas de poder. Eles viajam bem mais rápido do que a verdade e fazem grande estrago. No golpe republicano também houve: O movimento republicano civil e militar percebeu que só conseguiriam o apoio de Deodoro da Fonseca se inventassem uma narrativa de urgência e humilhação. Na monarquia brasileira (e em algumas na atualidade) o imperador escolhia  dentre os principais líderes do Parlamento aquele que seria o chefe de governo, cujo título era o de Presidente do Conselho de Ministros (ou chefe de gabinete ou primeiro-ministro). No dia 15 de novembro, o chefe de gabinete era o Visconde de Ouro Preto. Na manhã do mesmo dia, os boatos do dia anterior já faziam forte estrago: diziam que o Visconde teria decretado a prisão de Deodoro e de Benjamin Constant (militar positivista). A mentira forçou forçou Deodoro, idoso e doente, a liderar as tropas não para derrubar  a monarquia, mas o Visconde, que terminou sendo preso. Cabia ao Imperador nomear o substituto.
Novamente, os golpistas espalharam outro boato: o Imperador (que estava em Petrópolis) teria nomeado o deputado gaúcho Silveira Martins, um antigo desafeto de Deodoro. O velho marechal não procurou saber se a informação era ou não verdadeira e decidiu assinar o documento que decretava a implantação provisória da república. Militares e civis assinaram o decreto: Aristides Lobo, Rui Barbosa (que mais tarde se arrependeria), Quintino Bocaiúva, Benjamin Constant e Wandenkolk Correia. Pelo decreto, a república foi implantada de maneira provisória, até que o povo decidisse o que preferiria. 

 PERÍODOS DA REPÚBLICA VELHA:
1 – Governo Provisório
2 – República da Espada
3 – República Oligárquica 

GOVERNO PROVISÓRIO (1889-1891):
Como não houve uma transição votada, era necessário governar através de decretos para substituir a estrutura monárquica pela republicana. Sendo assim, foi criado um governo provisório sob o comando de Deodoro da Fonseca. Algumas das primeiras medidas foram:
1. Decreto nº 1: A república foi proclamada de forma PROVISÓRIA, até que o povo decidisse no futuro qual forma de governo preferia.
2. Federalismo: As antigas "Províncias" tornaram-se Estados. Eles ganharam uma autonomia que não tinham no Império (podendo até fazer empréstimos no exterior e ter exércitos próprios, as Forças Públicas).
3.Deodoro da Fonseca governaria de forma ditatorial até que uma nova Constituição fosse redigida.
4. Separação entre Igreja e Estado: O Brasil deixou de ter uma religião oficial (o Catolicismo) e tornou-se um Estado Laico (neutro e não ateu), ou seja, os feriados religiosos continuavam mantidos por respeito ao passado histórico do país (se proibisse, deixaria de ser neutro). O casamento civil passou a ser o único com validade jurídica, e os cemitérios, antes controlados pela Igreja, passaram para a administração municipal. Liberdade de Culto: Todas as religiões passaram a ser permitidas legalmente.
5. A "Grande Naturalização": Para aumentar a base de cidadãos e consolidar a soberania, o governo decretou que todos os estrangeiros residentes no Brasil seriam considerados cidadãos brasileiros, a menos que manifestassem o desejo contrário em dois meses.Isso foi estratégico para integrar a massa de imigrantes europeus que chegava para trabalhar nas lavouras de café.
6. Novos Símbolos Nacionais: A República precisava de uma identidade visual que apagasse a memória dos Bragança: a bandeira atual (desenhada por positivistas), manteve o verde e o amarelo (cores das famílias reais, mas ressignificadas como matas e ouro) e substituindo o brasão imperial pelo globo celeste com o lema "Ordem e Progresso".
7. Eleições gerais para a Assembleia Geral Constituinte: foram convocadas eleições para escolher os deputados e senadores que escreveriam a nova lei ocorreram em 15 de setembro de 1890.
8.O Encilhamento, o Desastre Econômico: Durante o Segundo Reinado,  a moeda (o Mil-réis) era relativamente estável. O Império seguia o "Padrão-Ouro" e a emissão de dinheiro era rigidamente controlada pelo governo central. A Inflação era baixíssima (em torno de 1 a 4% ao ano). Houve décadas com inflação quase zero ou deflação. O Brasil tinha um crédito excelente no exterior (especialmente em Londres). A república recém instalada destruiu a economia em pouquíssimo tempo: Assim que assumiu o Ministério da Fazenda em 1890, Rui Barbosa quis industrializar o Brasil "na marra". Para isso, ele abandonou o rigor imperial e permitiu que vários bancos privados emitissem papel-moeda para dar crédito às pessoas e às empresas. O resultado foi um desastre imediato: Emissão Descontrolada: O volume de dinheiro em circulação saltou drasticamente sem ter ouro como lastro. Surgiram centenas de "empresas fantasma" na Bolsa de Valores. As pessoas pegavam dinheiro emprestado, compravam ações de empresas que não existiam e vendiam logo depois. Com muito dinheiro "podre" circulando e pouca produção real, o resultado foi catastrófico: inflação galopante (mais de 100 % em 1892), especulação desenfreada na Bolsa de Valores e a falência de milhares de empresas. Esse caos econômico ficou conhecido como Encilhamento e quase derrubou a República nos seus primeiros anos. A inflação foi tão severa que se tornou um dos principais combustíveis para a crise de popularidade do Marechal Deodoro, contribuindo para que ele tentasse um golpe de Estado e, posteriormente, fosse forçado a renunciar em 1891.

AS TRÊS CORRENTES REPUBLICANAS QUE DISPUTAVAM O PODER: Positivistas, Jacobinos e Liberais disputavam qual modelo seria implantado no Brasil: positivista, jacobino ou liberal
a) Os Positivistas, liderados  por Benjamin Constant, eram oficiais e professores da Escola Militar. Queriam uma Ditadura republicana. Consideravam a democracia como um regime fraco que facilitava a ação dos enganadores do povo e dos conchavos políticos. O Estado deveria ser gerido por técnicos (militares e cientistas) para garantir a "Ordem e o Progresso". Eram os "cientificistas". Não queriam o povo votando, pois o povo era facilmente enganado pelos discursos fáceis de promessas dos demagogos. Cabia aos “iluminados positivistas” cuidar do povo pois sabiam o que era melhor.
B) Os Jacobinos:Era a ala mais radical e nacionalista, que foi reforçada com a chegada de  Floriano Peixoto ao poder no final de 1891. Eram anti-monarquistas radicais que sempre acreditavam em algum um complô para derrubar a república). Queriam Uma república forte, centralizada. Eram nacionalistas, anti-liberais e xenófobos (contra comerciantes portugueses) e não hesitavam em usar a violência para "defender a República". Eles viam em Floriano Peixoto o "Consolidador" que salvaria o Brasil da monarquia e das elites oligárquicas.
C) Os Falsos Liberais (A Elite oligárquica): Na prática, era pura oligarquia que não tinha nada de liberal.  Ser “liberal” significava defender a autonomia dos estados contra o poder central do Rio de Janeiro. Na prática, o discurso liberal era usado para ter ampla liberdade de mandar em seus estados com pouca interferência do governo federal. Em uma sociedade profundamente agrária, onde predominava o mandonismo local, só existia o "liberalismo para os patrões e autoritarismo para os empregados". Eles defendiam uma República Federativa inspirada nos Estados Unidos apenas como fachada. Não gostavam da ideia de uma ditadura militar permanente e queriam os militares de volta aos quartéis o mais rápido possível.

A PRIMEIRA CONSTITUIÇÃO REPUBLICANA (1891):
- foi elaborada pela Assembleia Constituinte e promulgada em 24/02/1891. Alguns detalhes importantes dessa Carta Magna:
-A república foi chamada de Estados Unidos do Brasil, inspirada na Constituição norte-americana.
-Implantou o Estado Laico e garantiu a Liberdade religiosa.
- As Províncias foram transformadas em Estados através do regime Federativo: os Estados ganharam bastante autonomia em relação ao poder central, algo que desagradaria os presidentes da república, pois limitava-lhes o poder.
- instituiu a república presidencialista, copiada do modelo norte-americano.
- instituiu três poderes de Estado: Executivo, Legislativo e Judiciário; o poder moderador foi extinto.
- implantou o voto direto e aberto: os cidadãos com mais de 21 anos podiam votar.
- estavam proibidos de votar: mendigos, analfabetos, clérigos e militares. Não havia referência à proibição do voto feminino...na prática, as mulheres não votavam.
- o mandato dos governantes (presidente, governador e prefeito) era de quatro anos, sendo proibida a reeleição imediata. O vice-presidente da república só poderia assumir a presidência, no caso de vacância do cargo, se o presidente tivesse governador por no mínimo dois anos. Em caso contrário, deveriam ocorrer novas eleições. A primeira eleição presidencial ocorreu de forma indireta: A Assembleia Constituinte determinou que os primeiros presidente e vice seriam eleitos indiretamente pela própria Assembleia...sendo assim, os Constituintes elegeram dois marechais: Deodoro da Fonseca para presidente e Floriano Peixoto para vice. A escolha desses marechais foi intencional: era um recado para o caso de existir algum movimento de contragolpe por parte dos monarquistas.  
Por que o Brasil republicano não era liberal? Alguns  princípios liberais são, de maneira geral: eleições livres, igualdade política, Estado pequeno, transparência pública, limitação do poder político, pouca intervenção do Estado na economia, pouco protecionismo, mercado livre de privilégios políticos, ampla liberdade econômica.

REPÚBLICA DA ESPADA (1891 A 1894):
Foi assim chamada porque seus dois primeiros presidentes eram marechais, eleitos indiretamente pela Assembleia Constituinte: Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto.

GOVERNO DEODORO DA FONSECA (1891):
O primeiro presidente fez um péssimo governo:  não era positivista, nem falso liberal: era um militar de velha guarda, autoritário e sem experiência na política...era um amador em termos de política. Ele não entendia a lógica do balcão de negócios da política de partidos no Congresso. Ele estava acostumado a dar ordens e ser obedecido. O marechal via os congressistas como "bacharéis faladores" que atrapalhavam o progresso. Ele tomava decisões econômicas e políticas sem consultar o Legislativo, agindo como se ainda estivesse sob o Governo Provisório.
Para piorar, ele criou um ministério sob o comando do monarquista Barão de Lucena, fato que levantou suspeitas dos republicanos... Deodoro e Lucena tentavam reforçar o poder executivo, para que fosse possível governar mesmo sem a maioria do Legislativo. Além disso, a crise econômica causada pelo Encilhamento empobrecia ainda mais o povo e enfurecia as elites. O Congresso precisava de um mecanismo para responsabilizar o Executivo pela má gestão do dinheiro público. Sem uma lei de responsabilidade, o Presidente gastava à vontade e emitia dinheiro sem nenhum controle. A reação do Congresso foi criar a "Lei de Responsabilidade”, a qual limitava os poderes do Executivo, deixando claro que o Presidente não era o dono do país, mas um funcionário da Constituição.
Sentido-se ameaçado, Deodoro ordenou o fechamento do Congresso, prometendo novas eleições e a revisão da Constituição, com o objetivo de diminuir a autonomia dos Estados.  Em resposta, o Congresso Nacional lançou um Manifesto à Nação Brasileira, denunciando o golpe. A Armada (Marinha), e os ferroviários do Rio de Janeiro se rebelaram. Diante da forte oposição, Deodoro, idoso e doente, renunciou com menos de um ano de mandato.

GOVERNO FLORIANO PEIXOTO (1891 A 1894)
De acordo com a Constituição, Floriano não poderia assumir a presidência, pois Deodoro da Fonseca renunciou com menos de dois anos de mandato...ou seja, deveriam ocorrer eleições presidenciais diretas. O Supremo Tribunal Federal preferiu se eximir. Floriano decidiu entregar a questão para o Congresso, o qual decidiu pela sua permanência, fato que provocou a Segunda revolta da Armada. Floriano assumiu a presidência em um momento de extrema fragilidade, pois Deodoro havia renunciado após tentar um golpe, e a República corria o risco de ruir. Seu governo foi marcado pelo primado da força sobre a lei e repressão severa contra opositores, inclusive com prisões e deportações.
Na economia, Floriano combateu os efeitos danosos do Encilhamento:  proibiu os bancos de emitirem dinheiro e concedeu estímulos à indústria, facilitando o crédito para empresários e para a importação de maquinário...essa medida desagradou os cafeicultores, os quais defendiam medidas econômicas voltadas para seus negócios. Para agradar a população urbana, Floriano tabelou o preço de alguns alimentos e dos aluguéis...além disso, incentivou a construção de moradias populares. Rapidamente, Floriano tornou-se um presidente querido pela maioria do povo, o qual não estava preocupado com questões políticas, mas com as contas para pagar e a família para sustentar.
O Marechal de Ferro: Floriano criou o precedente de que a Constituição é um detalhe menor diante da "segurança nacional". Ele governou como um ditador dentro de uma moldura republicana. 
Ele chegou à presidência em meio à uma combinação explosiva de crise econômica, tensão institucional e instabilidade militar, após dois golpes. Durante seu governo eclodiram a segunda revolta da Armada e a Revolta Federalista no Sul. Ambas contestavam a autoridade do governo central. Floriano conseguiu reprimir estas rebeliões, reforçando sua imagem de um governante determinado a consolidar a república, fato que conseguiu através de uma política implacável de perseguição aos opositores, censura da imprensa e intervenção nos estados, onde substituiu  governadores da oposição por oficiais do Exército, garantindo que o poder das armas estivesse alinhado ao poder político. Floriano Peixoto não consolidou uma Democracia Republicana; ele consolidou um Estado Republicano Autoritário. O resultado foi uma República que nasceu sob o signo do medo, do golpe e da "razão de Estado" acima dos direitos individuais. Após o fim do seu mandato, a república passa a ser dominada pelas oligarquias. O povo, pela primeira vez, votou para escolher o presidente, tendo elegido o paulista Prudente de Morais, representante da oligarquia cafeeira paulista.

A
 REPÚBLICA OLIGÁRQUICA (1895-1930)
Foi marcada pelo controle político do país através das principais oligarquias estaduais:
- as de primeira grandeza: São Paulo e Minas
- as de segunda grandeza: Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Sul.
Não havia um partido político poderoso em nível nacional. O poder dos partidos era estadual. Os principais partidos eram o PRM (Partido Republicano Mineiro), o PRP (Partido Republicano Paulista) e o PRR (Partido Republicano Rio-grandense).  Essa república oligárquica tinha como principal base política a prática do Coronelismo. Não havia um partido político poderoso em nível nacional. O poder dos partidos era estadual. Os principais partidos eram o PRM (Partido Republicano Mineiro), o PRP (Partido Republicano Paulista) e o PRR (Partido Republicano Rio-grandense).  

Essa república oligárquica tinha como principal base política a prática da troca de favores ou clientelismo político, cuja base era o Coronelismo. Não havia nenhum ideal de Brasil desenvolvido ou de ordem e progresso: o ideal sempre foi o dos interesses pessoais pela conquista e manutenção do poder. O "Coronel" era a peça fundamental porque ele era quem garantia os votos na base, para que outras elites permanecessem no topo do poder nacional por décadas. Era uma relação de dependência: o político de cima precisa do voto que o coronel controlava, e o coronel precisava das verbas do político mais poderoso para manter seu prestígio e poder sobre seu curral eleitoral.
O Coronelismo:
Era uma prática política baseada no poder de  grandes proprietários rurais e políticos poderosos (apelidados de “coronéis”), tinham de controlar votos e cargos públicos, em troca de apoio dos governos estadual e federal.
1- O coronelismo Rural: O Brasil foi mais rural do que urbano até os anos 50. O mundo rural era a principal estrutura de sustentação da política, onde o poder do coronel substituía o Estado como principal autoridade, sobrepondo-se ao delegado e ao juiz. Esse poder traduzia-se através do controle sobre:
- a indicação do delegado: O governador do estado nomeava os delegados com base nas indicações dos chefes políticos locais, ou seja, os coronéis. Se o coronel era o aliado do governador, era ele quem indicava o delegado.
- a influência sobre os juízes: Embora houvesse uma estrutura judiciária, a carreira dos magistrados dependia de favores políticos e da aprovação das elites estaduais.
- o Voto de Cabresto: era o controle sobre o voto do povo. Esse controle estava numa troca de favores: festas, transporte do eleitor, par de sandálias, óculos, título eleitoral, dentaduras, etc.) dessa maneira, o coronel não precisava usar a intimidação na hora da votação.
- o Curral eleitoral: eram as regiões controladas politicamente pelo coronel, onde seus eleitores votavam em quem ele indicasse.
- a Troca de favores: O curral eleitoral era a moeda de troca que o coronel usava para negociar com os governadores as obras que requeriam enormes despesas, tais como as estradas, pontes, eletrificação, etc. 
- Diferente do que muitos pensam, o coronelismo existiu em todo o Brasil, embora o nordestino tenha ficado mais famoso. Até mesmo nos grandes centros urbanos havia coronelismo:

2 - O Coronelismo Urbano: Diferente do coronel rural, o poder do coronel urbano vinha do controle dos empregos e favores. Naquela época, o povo só conseguia acesso a um emprego público através do “padrinho”, que era a indicação do coronel, o qual trocava emprego por votos. Da mesma maneira, esses coroneis concediam favores  (isenção de multas, agilização de processos, aposentadorias, etc.)., por votos. Quem eram esses poderosos? eram geralmente filhos de fazendeiros que migraram para as cidades, levando a "mentalidade de mando" para o ambiente urbano. Frequentemente eram bacharéis em Direito ou Medicina. O título de "Doutor" somava-se ao título de "Coronel", criando uma elite que dominava os fóruns, as prefeituras e as câmaras municipais. Eles já nasciam dentro de redes de influência. Para eles, a política era a continuação natural do poder familiar.

 A POLÍTICA DOS GOVERNADORES:
Foi um acordo criado no governo do presidente Campos Sales, através do qual foi institucionalizado o Clientelismo Político (troca de favores), que funcionava da seguinte maneira:
- A presidência da República só ajudaria os governadores que garantissem a eleição de parlamentares que lhe fossem fieis; 
-Os governadores, por sua vez, só ajudariam os coronéis que lhe fossem fiéis.
-Os coronéis, para receber verbas, usavam seus currais eleitorais para trocar favores com os governadores.
-Sendo assim, essa política se transformou em uma imensa troca de favores entre os níveis federal, estadual e municipal. 
-Na prática, era quase impossível que um candidato de oposição conseguisse eleger-se, pois a fraude nas urnas era a regra...mesmo que conseguisse superar a fraude, esse candidato seria eliminado pela Comissão de Verificação de Poderes, uma comissão formada por parlamentares fiéis ao presidente, a qual decidia pela "Degola", nome pelo qual era chamada esse tipo de cassação na época.

A POLÍTICA DE VALORIZAÇÃO DO CAFÉ:
Sendo o mais importante produto da economia brasileira, o café comandava a política econômica. Como havia muito café no mercado internacional, seu preço despencava eventualmente para níveis ameaçadores. Para evitar um grande prejuízo, os governos estaduais dos principais produtores de café reuniram-se em 1906, na cidade de Taubaté, onde definiram medidas para proteger os cafeicultores: sempre que o preço despencasse para níveis ameaçadores, os estados produtores comprariam os estoques e controlariam a venda do produto ao exterior de acordo com as variações do mercado. O dinheiro para essa operação veio de um empréstimo de 15 milhões de libras esterlinas, além da cobrança de um imposto sobre as sacas de café. Foi criada também uma Caixa de Conversão com o objetivo de manter o equilíbrio de valorização monetária. Essa ajuda aos cafeicultores ficou conhecida pelon nome de Convênio de Taubaté.

A POLÍTICA DO CAFÉ COM LEITE:
foi um acordo entre as duas maiores oligarquias, a paulista e a mineira, com o objetivo de se revezarem na presidência da república, através da imposição de um nome de consenso. Na prática, essa política funcionou quando teve também o apoio das oligarquias de segunda grandeza (fluminense, gaúcha, baiana e pernambucana):   dos 11 presidentes eleitos diretamente, 6 foram paulistas e 3 eram mineiros. As exceções ocorreram devido a morte ou ao não entendimento das oligarquias. Exemplos: 
- o fluminense Nilo Peçanha, devido a morte do mineiro Afonso Pena.
- o mineiro Delfim Moreira, devido a morte do paulista Rodrigues Alves.
- A eleição de 1910 foi, de fato, a  grande rachadura na "Política do Café com Leite: mineiros, gaúchos e diversos estados do Nordeste  apoiaram Hermes da Fonseca, que saiu-se vencedor. Os paulistas apoiavam Rui Barbosa.

A POLÍTICA DAS SALVAÇÕES :
Foi implementada por Hermes da Fonseca (1910-1914) com o objetivo de intervir e substituir oligarquias estaduais por aliados políticos. A justificativa era combater a corrupção e modernizar a administração, mas, na prática, trocou algumas oligarquias por outras, além de desestabilizar acordos políticos tradicionais e gerar conflitos, como ocorreu no caso de Juazeiro do Norte.
Causas/antecedentes:
O mandato de Fonseca foi marcado por um programa de intervenções nos estados, chamado de “Política das Salvações”, que, na teoria, objetivava:
- O Combate à corrupção: Alegava-se que as intervenções visavam moralizar a administração pública, acabando com práticas corruptas das oligarquias locais. 
- A Centralização do poder: Hermes buscava fortalecer o governo federal, reduzindo a autonomia dos estados e enfraquecendo oligarquias que não lhe eram aliadas. 
- Fortalecimento do Exército: Como militar, Hermes contava com o apoio das Forças Armadas, que viam nas intervenções uma forma de ampliar sua influência política. 
- Desestabilização de rivais: As intervenções eram usadas para substituir governos estaduais de oposição por interventores alinhados ao presidente.
- Modernização: Havia um discurso de modernização administrativa, embora as intervenções muitas vezes servissem a interesses políticos e pessoais.     
Em alguns estados, a resistência impediu a intervenção federal. Somente houve êxito em Pernambuco, Bahia e Alagoas. No Ceará, as tropas federais conseguiram substituir o governador Franco Rabelo. No entanto, não conseguiram  remover Padre Cícero do cargo de prefeito de Juazeiro do Norte. A tentativa contra Padre Cícero resultou no evento conhecido como a Revolta do Juazeiro. Na prática, essa política de Fonseca trocou "seis por meia dúzia", ou seja, substituiu algumas oligarquias por outras.

A ECONOMIA NA REPÚBLICA VELHA E A CHEGADA DA INDÚSTRIA
A base econômica era agrária e o café era o sustentáculo do país. Sua produção estava concentrada principalmente no eixo São Paulo-Rio de Janeiro-Minas Gerais. O ciclo da borracha foi bastante curto (1879 a 1912). Os outros artigos eram os tradicionais açúcar, algodão, tabaco, carne, etc.
 A industrialização era incipiente, limitada a pequenas e médias empresas de setores como têxteis e alimentos, geralmente dependente de capital estrangeiro. A política econômica estava desorganizada devido ao efeito devastador do "Encilhamento", provocando grande aumento de inflação. A economia agrária refletia a herança latifundiária e escravocrata.. O país enfrentava uma carência significativa de faculdades de engenharia e de incentivos ao desenvolvimento tecnológico. A formação de engenheiros, essencial para a industrialização, era limitada, com poucas instituições de ensino, como a Escola Politécnica do Rio de Janeiro e a Escola de Minas de Ouro Preto. A economia agroexportadora priorizava o setor primário, negligenciando a industrialização e a inovação tecnológica. A dependência de produtos importados refletia a falta de investimento em pesquisa e infraestrutura industrial. Esse cenário contribuiu para o atraso tecnológico do país em relação às potências industriais da época.

 No Brasil não houve Revolução Industrial...nossa  industrialização foi "transplantada", ou seja, introduzida de forma tardia e dependente em sua maior parte de capital e tecnologia estrangeiros. Iniciada no final do século XIX, foi marcada por uma modernização aparente ou modernização sem transformação.  No início da república velha havia poucas indústrias, o capital privado era pequeno e a maior parte dos incentivos governamentais destinavam-se a ajudar a economia cafeeira. havia pouca ajuda governamental para os que queriam iniciar um empreendimento industrial.  

Os principais agentes do início da industrialização foram: 
a) O capital dos cafeicultores: muitos cafeicultores decidiram investir uma parte de seu dinheiro na criação de médias e pequenas indústrias. Não foi por acaso que São Paulo tornou-se o estado com o maior número de indústrias: nele concentrava-e o maior volume de capital disponível para ser investido em empreendimentos.  

B) Imigrantes: A maioria era pobre, mas alguns trouxeram conhecimentos suficientes para iniciar pequenos negócios fabris que com o passar do tempo ampliaram-se substancialmente. Dois exemplos: o italiano Matarazzo, que chegou a ser o maior empreendedor do país e o alemão Gerdau, que iniciou um negócio no ramo siderúrgico que cresceu consieravelmente.

c) Política de Substituição: foi provocada pela Primeira guerra mundial: como não havia possibilidade de importação de produtos europeus, houve um grande esforço para tentar produzir por aqui o que fosse possível, através da criação de fábricas de pequeno e médio porte que não exigiam muito capital e tecnologia, geralmente dos setores de perfumaria, alimentos, têxtil, higiene, etc.

 O RACISMO E A EUGENIA NO BRASIL REPUBLICANO:
No final do século XIX, o Brasil tinha 17 milhões de habitantes, sendo que mais da metade era formada por negros e pardos. Além disso, a sociedade também se tornava cada vez mais mestiça e menos branca devido aos casamentos inter-raciais.  Uma boa parte da elite política era preconceituosa e creditava o atraso brasileiro à questão racial, ou seja, a cor da maioria da população seria a causa do atraso do Brasil. Nossa elite  era influenciada pelas mentiras da falsa ciência que predominava  na época, que era o  racismo científico (A humanidade estaria dividida em “raças” hierarquizadas, com capacidades naturais diferentes: europeus seriam “superiores” ; africanos, asiáticos e ameríndios seriam inferiores. A lógica era: “se na natureza há seleção natural, na humanidade também haveria”.  
Sendo assim, o governo provisório de Deodoro da Fonseca, através do Decreto nº 528, de 28 de Junho de 1890, restringia a imigração de africanos e asiáticos, ao mesmo tempo em que incentivava a vinda de europeus, pagando até 120 francos por cada adulto europeu. O objetivo era branquear a população ao longo do tempo. Boa parte dos europeus foi para a região sul atraídos pela oferta de minifúndios. O governo promovia a venda de pequenas parcelas de terra a preços acessíveis ou ofereciam contratos de arrendamento, muitas vezes com prazos longos e condições facilitadas.
 Mesmo com uma elite política preconceituosa, na república velha houve a a eleição de pretos e pardos para cargos importantes:
-Nilo Peçanha (1867-1924): político fluminense de origem humilde e ascendência negra, foi eleito governador do Rio de Janeiro, foi vice-presidente de Afonso Pena (1906-1909) e assumiu a presidência após a morte de Pena, servindo de 1909 a 1910. Foi também ministro das relações exteriores. 
-José Marcelino, um político baiano de ascendência negra, foi governador da Bahia de 1912 a 1916. 
-Eduardo Ribeiro: foi governador do Amazonas por dois mandatos: o primeiro de 1892 a 1896 e o segundo em 1900, ano de sua morte.
Houve também a indicação de dois negros para o cargo de juiz do STF:
-Pedro Lessa (1907-1921)
-Hermenegildo Rodrigues de Barros (1919-1937) 

 O MOVIMENTO OPERÁRIO:- O início: junto com as indústrias veio também o movimento sindical, primeiramente com anarquistas; depois chegaram os comunistas. As principais causas da luta operária eram a precária legislação trabalhista, a carga horária elevada e os baixos salários. Antes da criação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) em 1943, nossa legislação trabalhista era pequena: proibição de trabalho infantil, indenização em caso de acidentes de trabalho, aposentadoria para ferroviários, férias de 15 dias, proibição do trabalho perigoso, insalubre e noturno para crianças. 
As Associações de classe: Antes dos Sindicatos, os trabalhadores se organizaram em associações que tinham como objetivo principal a ajuda mútua e a melhoria das condições de trabalho.  Em 1906, foi realizado o Primeiro Congresso Operário Brasileiro, no qual foi decidido que as associações deveriam adotar o nome "sindicato". As principais pautas da luta operária era a  redução da longa jornada e melhores condições de trabalho e de salário.

 OS PROTESTOS: A greve era a principal forma de luta...anarquistas e comunistas acompanhavam o que acontecia na Rússia e organizaram uma grande greve em 1917, no mesmo ano da implantação da ditadura de Lênin...essa grande greve assustou empresários e governantes, que passaram a perceber que a verdadeira intenção por trás da luta operária ia muito além da  melhoria das condições de trabalho: o objetivo era o de implantar uma ditadura nos moldes da leninista/stalinista. Os agitadores e líderes sindicais estrangeiros que fossem presos em manifestações, protestos e greves passaram a ser deportados. Sendo assim, o movimento operário, as greves e o temor do comunismo, juntamente com outras causas contribuíram para o fim da república velha, através do novo golpe militar ocorrido em 1930.  

AS PRINCIPAIS REVOLTAS OCORRIDAS NA REPÚBLICA VELHA: 
- Revoltas da Armada 1 e 2 
- Revolta Federalista 
- Revolta e Guerra de Canudos 
- Revolta da Vacina 
- Revolta da Chibata 
- Revolta e Guerra do Contestado 
- Revolta do Juazeiro 
- Tenentismo: Os 18 do Forte, A Revolta Paulista de 1924, A Coluna Prestes-Miguel Costa. 

A  PRIMEIRA REVOLTA FEDERALISTA: Também conhecida como a Guerra da Degola, ocorreu entre 1893 e 1895, principalmente no Rio Grande do Sul, embora tenham ocorrido conflitos em Santa Catarina e Paraná. Foi na verdade uma guerra civil, com um saldo de doze mil mortos. Suas causas foram:
1) a rivalidade de dois partidos gaúchos: 
Partido Republicano Rio Grandense: eram os castilhistas ou chimangos  ou pica-paus: favoráveis ao governo de Floriano e defensores de um governo autoritário no Rio Grande do Sul                                     
2) Partido Federalista do Rio Grande do Sul: eram os maragatos ou federalistas: opositores de Floriano e do governo rio-grandense, criticavam o centralismo político. Defendiam uma república parlamentarista. Uma parte deles defendia o retorno da monarquia.

2) a disputa pelo poder entre dois líderes: de um lado, o governador gaúcho Júlio de Castilhos: defendia uma república autoritária e com menos autonomia para os Estados; apoiava Floriano Peixoto, defendia a república presidencialista, impôs aos gaúchos uma constituição considerada antiliberal e autoritária
- do outro lado, Gaspar Silveira Martins e Gumercindo Saraiva: faziam oposição a Floriano Peixoto e ao governador Júlio de Castilhos; defendiam uma república com mais autonomia para os Estados, parlamentarista; queriam revogar a Constituição gaúcha e uma parte deles queria outra constituição brasileira.
3- a rivalidade levou os federalistas(maragatos) a pegar em armas e tentar derrubar o governo de Julio de Castilhos, dando início à guerra civil. O Conflito estendeu-se até 1895, já no governo de Prudente de Morais...os republicanos ou Chimangos, com o apoio de tropas federais venceram a guerra. Júlio de Castilhos manteve-se no poder gaúcho, e os revoltosos foram anistiados." O conflito foi chamado de Guerra da Degola por ter ocorrido inúmeras execuções dessa maneira. A vitória das tropas florianistas resultou até na mudança do nome da capital de Santa Cataria (Desterro), que passou a chamar-se Florianópolis. Consequências: A república presidencialista consolidou-se. A figura do Exército como principal força interventora foi reforçada e os militares passaram a ter uma participação cada vez maior na política.

 A GUERRA DE CANUDOS (1893-1897) 

Ocorreu primeiramente como um movimento de uma comunidade religiosa onde havia pouca diferença social e o produto da lavoura e dos rebanhos era repartido entre todos. Essa comunidade defendia a monarquia e criticava os impostos criados pela república. Com o passar do tempo, entrou em conflito com as autoridades, resultando em uma sangrenta guerra, que só terminou com o extermínio em 1897. Foi uma das maiores guerras civis da História do Brasil, resultando em um saldo de aproximadamente 20.000 mortos. 

 Causas:
1 - O Messianismo, um movimento social que tem como base a religiosidade popular e a liderança carismática em meio a um ambiente de miséria e exclusão social. O beato Antônio Conselheiro se considerava um enviado de Deus para salvar o povo nordestino da miséria. Ele passou a pregar a ida do povo para uma terra prometida no sertão baiano, onde fundo o Arraial do Belo Monte, uma comunidade alternativa quase autossuficiente.

 2 - A exclusão social: O Nordeste passava por uma época de seca e não havia nenhuma ajuda oficial dos estados nordestinos para socorrer os flagelados. Era grande a exclusão social da maioria: não havia escola, posto de saúde, cesta básica, etc. A única presença do Estado, fosse ele municipal ou estadual era a do coletor de impostos, cuja cobrança ocorria de forma violenta.

 3 - A forte liderança carismática de Antonio Conselheiro convenceu  uma boa parte do povo a abandonar tudo e segui-lo.

 4 - Conselheiro era monarquista e atacava ferozmente a república, condenando o estado laico e a violenta cobrança de impostos em cima dos pobres sertanejos.

 5-Além do fervor religioso, o arraial de Canudos implantou um modelo econômico comunal, em que tudo o que era produzido era repartido entre todos. O que sobrava era comercializado nas cidades vizinhas.

 6 - Os coronéis da região começaram a se sentir incomodados com a perda de uma boa parte da população dos vilarejos...ou seja, seus currais eleitorais estavam indo embora.

 7 - O pequeno vilarejo de Belo Monte expandiu-se ao ponto de contar com cerca de de 25 000 habitantes. A imprensa, o clero e os latifundiários da região incomodavam-se com a nova cidade independente e com a constante migração de pessoas e valores para aquele novo local. Aos poucos, construiu-se uma imagem de Antônio Conselheiro como "perigoso monarquista" a serviço de potências estrangeiras, querendo restaurar no país a forma de governo monárquica. Difundida através da imprensa, esta imagem manipulada ganhou o apoio da opinião pública do país para justificar a guerra movida contra os habitantes do arraial de Canudos.

 8 - O Arraial de Canudos representava uma ameaça para a república em seus primeiros anos...era preciso acabar com aqueles monarquistas religiosos fanáticos...mesmo assim, Canudos enfrentou e conseguiu resistir a três investidas militares. Só na quarta expedição é que o povo foi completamente massacrado pelas tropas do Exército brasileiro.

  A GUERRA DO CONTESTADO (1912 - 1916) 

Ocorreu no sul, numa região de disputa territorial entre os estados do Paraná e Santa Catarina (de onde veio o nome Contestado, pois os dois estados reclamavam a posse do território). De maneira geral, teve causas semelhantes a da Guerra de Canudos: messianismo, miséria, insensibilidade governamental, etc.

 Causas 
1 - A construção da ferrovia ligando São Paulo ao Rio Grande do Sul pela empreiteira americana Brazil Railway Company; a obra atraiu muita gente pobre, em busca de emprego. As multidões foram se instalando nas matas ao redor da obra, no atual estado catarinense.

 2 - Ao mesmo tempo, como parte do pagamento, o governo federal concedeu uma grande extensão de terra (cerca de 30 km) à empreiteira para que ela explorasse a valiosa madeira (pinheiro) e a erva-mate, justamente naquela imensa área onde os camponeses haviam se instalado.

 3 - Concluída a ferrovia, a maioria dos trabalhadores ficou sem emprego e sem o acesso à terra. Foi nesse momento que surgiu a figura mística de José Maria, conhecido como "monge José Maria", que tinha fama de curandeiro. Sensibilizado com a difícil situação dos camponeses, fundou uma comunidade religiosa (o Quadrado Santo) onde os acolheu. Semelhante a Canudos, a comunidade vivia de maneira independente do Estado. A comunidade tinha rígidas normas de conduta com base em uma intensa religiosidade. A compra e a venda de mercadorias eram proibidas, havendo somente trocas. Acreditavam que o fim do mundo estava próximo e que ninguém deveria ter medo de morrer, já que haveria a ressurreição. Também foi criado um grupo armado, com distribuição de funções entre os membros.

 4- A comunidade de Quadrado Santo passou a preocupar os coronéis locais, pois além de perder eleitorado, imaginavam que no futuro isso poderia gerar uma intensa revolta. Além disso, a comunidade era também mal vista por defender ideais monarquistas (chegaram a criar um Manifesto Monarquista).

 O CONFRONTO 

Para evitar a ampliação do movimento, em setembro de 1912, os grandes fazendeiros chamaram a força pública para expulsar os posseiros, que tinham poucas armas (machados, espingardas e facões. O monge José Maria foi morto nesse primeiro confronto, mas a comunidade passou a ter outros líderes, com destaque para Maria Rosa, a "Joana D'Arc do Sertão", uma adolescente de 15 anos que afirmava receber ordens diretas de José Maria para que coordenasse a resistência da Comunidade. O Quadrado Santo conseguiu resistir até 1916, usando técnicas de guerrilha e atacando fazendas para conseguir recursos. O fato repercute diretamente no governo federal, o qual envia o Exército com cerca de 90 mil soldados, uma pesada artilharia e até aviões, os quais foram usados como armas de guerra pela primeira vez no Brasil. A guerra chega ao fim em agosto de 1916, deixando um saldo tenebroso: entre 10 a 15 mil mortos e cerca de 8 mil casas incendiadas. Em outubro de 1916, foi assinado, no Rio de Janeiro, o Acordo de Limites entre Paraná e Santa Catarina.

  

A SEGUNDA REVOLTA FEDERALISTA (1923-1924) ocorrida novamente no Rio Grande do Sul foi causada por disputas políticas, fraudes eleitorais e o autoritarismo do governador Borges de Medeiros, do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR). Os federalistas (maragatos), liderados por Assis Brasil, queriam eleições limpas, alternância no poder e o fim do autoritarismo. A revolta terminou com o Pacto de Pedras Altas (1923), que limitou mandatos, mas manteve Borges no governo.  

A REVOLTA DO JUAZEIRO 
ocorrida no Ceará, foi um movimento popular vitorioso, liderado por Padre Cícero e coronéis da região contra a tentativa de intervenção do governo federal em Juazeiro do Norte. As principais causas foram: 

-Intervenção federal: A política de salvações do presidente Hermes da Fonseca, no sentido de substituir algumas oligarquias regionais.  

-Poder dos coronéis: Os coronéis, que controlavam a política e a economia local, viram sua influência ameaçada pela intervenção.  

-Messianismo e Coronelismo: O poder de Padre Cícero: Figura carismática e religiosa, Padre Cícero uniu sertanejos e coronéis em defesa de Juazeiro do Norte, sendo visto como um líder messiânico.  

-Apoio popular: A população pobre do sertão via em Padre Cícero um protetor e se revoltou contra o governo, que consideravam distante e opressor.

  A FASE FINAL DA REPÚBLICA: REBELIÕES MILITARES/ A QUEBRA DA HIERARQUIA  

TENENTISMO: foi um movimento protagonizado por jovens oficiais do Exército, conhecidos como "tenentes". Esses militares estavam descontentes com a situação política e social do país, marcada por corrupção, oligarquias regionais e exclusão da maioria da população do processo político.

 Quais eram os objetivos dos tenentistas? Não tinham uma pauta bem definida...de maneira geral, era uma mistura de ideais nacionalistas, reformistas e autoritários. Apesar de criticarem as oligarquias, muitos tenentistas não tinham um projeto claro para substituir o sistema vigente, oscilando entre propostas democráticas e tendências militaristas. Essa ambiguidade contribuiu para a diversidade de caminhos que o movimento tomou posteriormente, incluindo o novo golpe militar em 1930 e a entrega do poder a Getúlio Vargas.

   As consequências do Tenentismo foram:

 a) a revolta dos 18 do forte

 b) a revolta Paulista de 1924

 c) a Coluna Prestes/Miguel Costa (1925-1927)

  Os Dezoito do Forte: 

foi uma tentativa golpista de impedir a posse do presidente eleito Artur Bernardes, em 1922. 

Essa tentativa surgiu a partir dos desdobramentos das eleições presidenciais de 1922: paulistas e mineiros apoiavam o mineiro Artur Bernardes, enquanto o carioca Nilo Peçanha tinha o apoio de Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. Artur  Bernardes foi vítima de boatos maldosos de que teria escrito cartas ofensivas às forças armadas ...mais tarde, comprovou-se que eram falsas, mas o estrago já estava feito e Artur Bernardes passou a ser odiado por uma parte dos militares. Alguns destes oficiais (dezessete) e um civil, tentaram impedir a posse de Bernardes em 1922, no evento em que apenas dois deles sobreviveram.

 A REVOLTA PAULISTA DE 1924: Liderada por militares como Isidoro Dias Lopes e Miguel Costa, os revoltosos ocuparam a sede do governo de São Paulo e as principais rotas de entrada da cidade, chegando a declarar São Paulo "cidade libertada". A ocupação durou 23 dias. Exigiam reformas políticas, como o voto secreto e o fim das oligarquias. Tentaram ganhar, sem sucesso, o apoio popular.O governo federal reagiu até com bombardeio aéreo. Derrotados, os rebeldes fugiram para o sul e criaram a Coluna Prestes-Miguel Costa.  

A COLUNA PRESTES-MIGUEL COSTA: militares rebelados circularam durante dois anos (mais de 25 mil quilômetros) pelos sertões do Brasil (sul, sudeste, centro-oeste e nordeste) em protesto contra a república, buscando o apoio popular para derrubar o governo.  

Causas do fracasso: 
- a falta de apoio popular: a população rural não se engajou nos ideais tenentistas.  

- as dificuldades logísticas: se a falta de estradas por um lado ajudava a Coluna a esconder-se, por outro dificultava o suprimento de armamentos, munições, etc.  

- A estratégia de evitar confrontos diretos, focando em deslocamentos rápidos, limitou sua capacidade de consolidar conquistas territoriais ou políticas.  

- A falta de um projeto político claro e unificado entre os líderes e participantes da Coluna também contribuiu para seu esgotamento: a Coluna abrigava comunistas, nacionalistas, anarquistas, democratas, liberais, etc. A Coluna acabou sendo desfeita em 1927.  

O FIM DA REPÚBLICA VELHA COM UM NOVO GOLPE MILITAR EM 1930  Essas revoltas militares mostravam que a república velha não duraria muito tempo, fato que ocorreu logo após as eleições presidenciais de 1930...antes da eleição, Minas Gerais e São Paulo já haviam rompido a política café com leite. os paulistas indicaram Júlio Prestes como candidato, desagradando os mineiros que queriam Antonio Carlos de Andrada.  Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba lançaram a candidatura de Getúlio Vargas para presidente e João Pessoa para vice. Prestes venceu a eleição, fato que provocou um enorme clima de indignação, frustração e revolta pelo país. Entretanto, no Recife ocorreu o assassinato de assassinato de João Pessoa por um inimigo político paraibano. As causas estavam relacionadas a uma antiga briga política local, ou seja, não havia conexão com a derrota nas eleições presidenciais. Entretanto, a oposição e os militares utilizaram o fato como principal motivo para tomar o poder em outubro de 1930, nos últimos dias do então presidente Washington Luís. Logo em seguida, os militares convidam Vargas para tomar o poder.  

 

terça-feira, 21 de março de 2023

EXPANSÃO MARÍTIMA - BRASIL COLONIAL - CICLO DO AÇÚCAR

EXPANSÃO MARÍTIMA E COMERCIAL PORTUGUESA - AMÉRICA PORTUGUESA TEXTO 1
Iniciada no século XV, foi impulsionada por causas econômicas, políticas, tecnológicas e religiosas.
Causas do Pioneirismo Português :
- monarquia fortalecida precocemente entre  1383 e 1385, através da Revolução de Avis:  Esse fortalecimento permitiu que os recursos do reino fossem direcionados para o projeto da expansão e não para guerras. Diferentemente da Espanha (que ainda combatia os mouros até 1492) e da Inglaterra e França que viviam a Guerra dos Cem Anos (1337 a 1453).
- Aliança com a Inglaterra (Tratado de Windsor, 1386): Sendo um reino minúsculo, Portugal precisava de um aliado que garantisse ajuda contra as pretensões espanholas ou francesas. Em troca da ajuda militar, a Inglaterra obteve acesso aos portos lusitanos no Atlântico, livre circulação de suas mercadorias, redução de impostos e privilégios alfandegários. Até os dias atuais este Tratado está em vigor.
- O lucrativo comércio com o Oriente: havia forte demanda europeia pelas especiarias e diversos artigos orientais. Entretanto, as rotas desse comércio estavam sob domínio dos árabes e dos italianos, que controlavam o comércio no Norte da África e no mar Mediterrâneo; Sendo assim, as navegações tornaram-se política de Estado.
- A Expansão da Fé Cristã e a Luta Contra o Islã: A expansão no Norte da África e, posteriormente, no Oriente, também era impulsionada pelo desejo de expandir a fé católica, levando-a aos gentios. Ao mesmo tempo era uma espécie de vingança contra os setecentos anos em que os portugueses estiveram submetidos ao domínio islâmico na Península Ibérica.
- "Escola" Náutica de Sagres (impulso científico): Foi um centro de pesquisas náuticas bancado pela Coroa e pela Ordem de Cristo (ordem militar e religiosa que herdou bens dos cavaleiros medievais dos tempos das Cruzadas.  Sagres era um centro de pesquisas sobre as correntes marítimas, novas técnicas de navegação, etc. Foi lá que foi criada a famosa caravela.
-A Busca por especiarias: Açúcar, pimenta, cravo, canela, cravo, etc., eram extremamente valiosas na Europa, mas o comércio desses produtos era controlado por mercadores árabes e italianos. Portugal buscava uma rota direta para as Índias e as alternativas seriam

através da África: só se conhecia o norte africano...além do Saara havia pouca informação e era grande o risco.
b) contornando a África: até então, o que se do litoral ocidental da África era sua parte superior. Ninguém sabia se havia tinha alguma passagem para o lado oriental através do oceano. O mundo conhecido da época resumia-se ao norte africano, a Europa, o Oriente Médio, as Índias e uma parte da Ásia. Na África ocidental, a navegação costeira terminava no temível Cabo Bojador, o qual representava um grande desafio para o avanço da navegação. Mesmo assim, Portugal decidiu encarar esse desafio, diante da perspectiva de acessar novas fontes de riqueza, ouro, prata, marfim, etc....além disso, havia a esperança de encontrar uma rota para as Índias
A Conquista de Ceuta (1415): localizada no estreito de Gibraltar, no lado africano, Ceuta era uma rica cidade árabe, um importante ponto de passagem entre o Mediterrâneo e o Atlântico. Controlar Ceuta permitiria a Portugal influenciar as rotas comerciais e lucrar através do comércio de ouro, especiarias, escravos, etc. Ceuta era também uma porta de entrada para as rotas transaarianas que traziam mercadorias da África subsaariana. Portugal buscava desviar esse comércio para suas próprias rotas marítimas. 
Ceuta representava o início do expansionismo lusitano além de seu território na Europa. Essa conquista também foi uma forma de combater piratas árabes que atacavam tanto o sul de Portugal quanto os navios mercantes portugueses. A ocupação de Ceuta ajudaria a proteger as rotas comerciais marítimas. 
O Espírito de Cruzada: A conquista de Ceuta também significou uma espécie de Retomada do Espírito de Cruzada. Era uma forma de combater o islamismo e expandir a fé cristã, ganhando o apoio da Igreja e da população. A Ordem de Cristo, herdeira dos Templários, financiou muitas expedições, combinando interesses comerciais e religiosos. A Ordem era uma instituição poderosa e multifacetada, reunindo nobres, clérigos, comerciantes e exploradores em torno de um projeto comum: a expansão marítima e a difusão do cristianismo. Seus membros não apenas forneciam recursos e liderança, mas também legitimavam as expedições como uma missão religiosa, comercial e civilizatória. A Ordem de Cristo foi o pilar financeiro, logístico e ideológico no início da expansão marítima. Navegar pela costa da África era um investimento de altíssimo risco e retorno demorado. Nenhum banqueiro queria emprestar dinheiro para algo que não se sabia se daria lucro.
a Ordem de Cristo foi a principal financiadora da fase inicial. A cruz estampada nas velas brancas das caravelas era a Cruz da Ordem de Cristo.

 Missão evangelizadora: Portugal via a expansão como uma missão divina, e a tomada de Ceuta era um passo para difundir o cristianismo em terras muçulmanas e uma forma de se vingar do tempo em que os mouros dominaram a península ibérica.   
Fortalecimento do poder monárquico: Portugal fortaleceu sua monarquia precocemente, antes mesmo da França, Inglaterra e Espanha. Isso ocorreu através da Revolução de Avis (1383-1385), que consolidou o poder da monarquia portuguesa, criando um Estado centralizado e estável. A aliança entre a coroa, a burguesia comercial e a nobreza permitiu investimentos em projetos de longo prazo, como as navegações.

Tecnologia Naval: Portugal investiu em avanços tecnológicos, como a caravela, um navio ágil e adaptado à navegação oceânica, ao mesmo tempo em que aperfeicoou instrumentos como a bússola, o astrolábio e o sextante.  e as cartas náuticas aprimoradas permitiram explorações mais seguras e precisas.

A Ajuda dos Ventos: Quando os portugueses desciam a costa da África em direção ao sul, eles encontravam dois fenômenos: 
Ventos Alísios: sopram de Nordeste para Sudoeste. Eles eram ótimos para descer a costa, mas tornavam a viagem de volta para Portugal um pesadelo, pois o barco teria que navegar "contra o vento". 
Corrente das Canárias: Uma corrente marítima que flui para o sul.
Esses fenômenos dificultavam bastante o retorno dos barcos para Portugal. Para vencer esse problema, os portugueses não tentavam lutar contra os ventos do Saara. Eles criaram uma técnica genial chamada Volta do Mar: Em vez de voltarem pelo litoral africano, os navegadores manobravam para o mar aberto, em direção ao Noroeste (adentrando o Atlântico central), fazendo uma espécie de arco até encontrarem os ventos de Oeste (perto dos Açores), que então os "empurravam" de volta para Portugal.

A transposição do temível Cabo Bojador (1434):
O Cabo Bojador era considerado o fim do mundo, o limite do que se conhecia sobre a África e o mundo; desconhecia-se o que havia além desse obstáculo: sobravam lendas sobre  monstros marinhos, águas ferventes e o fim da Terra. Esses mitos criavam um clima de temor entre os marinheiros. Na realidade, esse Cabo é um lugar considerado traiçoeiro para as navegações por 3 razões: 
O Bojador é um lugar traiçoeiro por três razões: 
- Águas Rasas com inúmeros bancos de areia que se estendem por quilômetros mar adentro, criando ondas gigantescas e violentas.
- Nevoeiros Constantes: O encontro do calor do deserto com a água fria do oceano gerava névoas densas, fazendo os marinheiros perderem o sentido de direção. 
- Correntes Fortíssimas: As correntes empurravam os navios para o sul com tanta força que os marinheiros acreditavam que, se passassem dali, jamais conseguiriam voltar.
Naquela época, os navegadores lusitanos navegavam próximo ao litoral, ou seja "olhando para a terra" (navegação de cabotagem). O Cabo Bojador impedia este tipo de navegação. 
Só havia um meio de superar este Cabo: levar os barcos para bem longe do litoral...
Foi apenas em 1434 que Gil Eanes conseguiu a façanha de manobrar para o mar aberto e descreveu um arco, passando por fora da zona de perigo e voltando à costa alguns quilômetros adiante. 
Além disso, os ventos e as correntes oceânicas empurravam os barcos ainda mais lo para oeste, afastando-os da costa africana. Ao se afastarem da costa e avançarem sobre o Oceano Atlântico, os navegadores começaram a encontrar indícios de que havia terra...mas tudo isso era segredo de Estado

1488: Cabo das Tormentas (Boa Esperança): A África tem fim
Essa transposição foi um memorável feito do navegador Bartolomeu Dias.  chega ao fim do continente africano. A maior parte do litoral do continente já estava mapeada por Portugal. Entretanto, foram necessários mais dez anos para que fosse possível chegar às Índias.
A chegada às Índias: foi um marco na expansão marítima portuguesa e trouxe lucros extraordinários para Portugal. Ao chegar a Calicute em 1498, Vasco da Gama estabeleceu contato direto com as rotas de especiarias do Oceano Índico, contornando os intermediários árabes e venezianos que dominavam o comércio no Mediterrâneo. A carga de especiarias, como pimenta, canela e cravo, trazida em sua viagem de retorno, foi vendida na Europa com lucros estimados em 60 vezes o custo da expedição. Esse sucesso financeiro consolidou a viabilidade da rota marítima para as Índias e incentivou Portugal a investir em novas expedições, como a de Pedro Álvares Cabral em 1500. Essa viagem não apenas trouxe lucros imediatos, mas também estabeleceu as bases para o domínio português no comércio asiático, fortalecendo a economia e a posição geopolítica de Portugal no século XVI.

A CONCORRÊNCIA ESPANHOLA E O TRATADO DE TORDESILHAS: após a unificação dos reinos de Castela e Aragão, a Espanha também lançou-se às Grandes Navegações. Em 1492, Cristóvão Colombo, financiado pelos reis espanhóis, chegou à  ilha de guanahani no caribe. Rapidamente, a Espanha pediu ao Papa Alexandre VI um documento oficializando a posse da terra. O papa emitiu a Bula Intercoetera (1493), dividindo as terras descobertas entre Portugal e Espanha por um meridiano a 100 léguas a oeste de Cabo Verde. Portugal não aceitou de modo algum esta Bula. Para muitos estudiosos, isto era a prova de que Portugal sabia da existência da futura colônia americana. Em 1494, espanhóis e portugueses negociaram o Tratado de Tordesilhas (1494), que ajustou a linha para 370 léguas a oeste, garantindo a Portugal o território do Brasil. Esse Tratado jamais foi aceito por outras coroas europeias, em particular a França, que disputou partes do terrritório brasileiro com Portugal.

AMÉRICA PORTUGUESA: A CHEGADA PORTUGUESA
Durante muitos anos, a narrativa histórica lusitana defendeu a tese de que a chegada da  esquadra comandada por Cabral ao Brasil foi acidental e não intencional. Atualmente, já é aceito pelos historiadores que Portugal sabia que havia terra e que a parada no Brasil da esquadra de Cabral, antes de ir às Índias, foi para tomar posse do território que lhe cabia segundo o Tratado de Tordesilhas.  Entretanto, os  os portugueses, naquele momento, tinham como prioridade econômica o lucrativo comércio de especiarias na Índia pois não encontraram de imediato nada valioso o suficiente para cobrir o enorme custo inicial de ocupar o vasto território, com exceção do comércio da madeira de cor vermelha, chamada de pau-Brasil. 
OS NOMES DO BRASIL: 
Devido à imensidão do território e aos diversos grupos indígenas que nele habitavam, não havia unanimidade sobre o nome da terra. Alguns grupos chamavam-na de Pindorama (terra das Palmeiras). Os portugueses também não sabiam o tamanho do território. Logo após a chegada de Cabral, foi chamada de Ilha de Vera Cruz (1500)
- logo em seguida, foi chamada de Terra Nova (1501), Terra dos Papagaios (1501), Terra de Vera Cruz (1503), Terra de Santa Cruz (1503),  Terra do Brasil (1505), e, finalmente, Brasil, desde 1527.

PERÍODO PRÉ-COLONIAL (1500-1530):
No início, o território brasileiro não apresentava vantagens comerciais significativas pois não havia comércio local, nem cidades, vilas, nem riqueza alguma como metais e pedras preciosas. Iniciar um empreendimento significava desembolsar muito dinheiro para nenhum resultado. A exceção foi o pau-Brasil. Durante trinta anos, os portugueses pouco se interessaram pelo território, pois o lucro do comércio na costa africana e nas Índias era mais interessante. Nessa fase inicial, os portugueses limitaram-se
- ao escambo do pau-Brasil com os indígenas
- à criação de feitorias ao longo do litoral
- ao envio de expedições guarda-costas para patrulhar o litoral e expulsar os franceses, que também negociavam o pau-Brasil com os índios.

Colônia de Exploração e Povoamento:
Divergindo de narrativas que afirmam que o Brasil foi apenas um colônia de exploração de  recursos, os fatos mostram que foi também uma  uma colônia de povoamento, pelo simples fato de que se Portugal não estimulasse o crescimento populacional e a ocupação do território, outros povos o tomariam. Esse povoamento só começaria de fato algum tempo depois, de forma precária com as Capitanias e de forma mais exitosa com o Governo Geral. Não foi a colonização portuguesa a responsável pelos diversos problemas do Brasil atual. São outros fatores que não são o foco de nosso estudo. É importante destacar que a colônia brasileira estava submetida a diversas determinações do Estado Português.
-Características Políticas do Brasil como colônia:
- O modelo político do Brasil colonial foi essencialmente o de um "Estado transplantado" de Portugal, o qual refletia a estrutura administrativa e as práticas do reino metropolitano. A Coroa portuguesa impôs capitanias hereditárias, governos gerais e um sistema burocrático centralizado, replicando seu aparato de controle e exploração. As instituições, como as Câmaras Municipais, seguiam os moldes portugueses, adaptados às necessidades locais.
- o Brasil era administrado por representantes da metrópole (governadores gerais e depois vice-reis), que implementavam as decisões oriundas da metrópole.
- A participação dos colonos era pouca e resumia-se às Casas da Câmara, que eram controladas pelos donos de engenho, os quais, em alguns momentos divergiam das decisões de Lisboa, mas tinham quase nenhum poder para alterá-las. 

- Ausência de Soberania: A colônia não possuia nenhuma soberania, não tinha autonomia para tomar decisões independentes sobre seu território, leis ou relações internacionais. 
Repressão e Controle: Para manter o domínio, a metrópole recorria à repressão militar e política, suprimindo revoltas e movimentos insurgentes. Por não terem encontrado metal ou pedra preciosa de imediato, os portugueses limitaram-se a estas ações, as quais não garantiam a posse do território...os franceses não respeitavam Tordesilhas e isso representava para os portugueses uma séria ameaça de perder o Brasil. 
As Capitanias Hereditárias: 
A partir de 1530, Portugal tentou iniciar a  colonização para não perder parte ou todo o território para os franceses, que também praticava o escambo com os índios. 
Por que o sistema de Capitanias? O rei D. João III sabia que a colonização sairia muito cara para os cofres da nação, pois no Brasil não havia nenhuma estrutura (só havia florestas, indígenas e animais). O rei optou por transferir o custo inicial para a iniciativa privada, através do sistema de  Capitanias hereditárias.
- O sistema já havia sido adotado com sucesso por Portugal em algumas ilhas: Ilha da Madeira, Açores e Cabo Verde, onde foi exitoso na produção açucareira. Entretanto, eram pequenos territórios, o que facilitava a administração. Nunca tinha sido adotado em uma área tão vasta e tão distante como era o Brasil.
- Em 1534, o rei dividiu dividiu o território entre alguns nobres e comerciantes que tinham interesse e recursos suficientes para investir. O território foi dividido em 15 faixas de terra, e a administração foi entregue aos donatários. Sendo empreendimentos privados, o prejuízo, caso ocorresse, ficaria na conta do Donatário e dos sesmeiros. 
Cartas de Doação e  Foral
O Donatário recebia o direito de exploração da terra por meio da Carta de Doação e os seus deveres através da Carta Foral. A Carta de Doação definia os direitos do Donatário sobre a capitania: a posse da terra, a autoridade para administrá-la e explorar seus recursos, exercendo o poder poder político e judicial sobre os colonos. Esse documento estabelecia os privilégios do donatário em relação à Coroa. 
Já na Carta Foral, estavam definidos os deveres do donatário tais como a obrigação de promover o povoamento, conceder sesmarias, defender o território, expandir a fé católica, cobrar impostos, etc.  Além disso, o foral regulamentava os direitos e deveres dos colonos, estabelecendo as relações econômicas e sociais dentro da capitania.

As Sesmarias: 
A palavra deriva de sesma (sexta parte) , a qual vem do latim SEXIMA, uma alteração de SEXTA, “a sexta parte”. Os capitães donatários podiam dividir o custo do empreendimento através da distribuição de terras – chamadas de sesmarias – para os interessados em instalar-se na América Portuguesa, desde que tivessem condições para arcar com o enorme custo inicial. As sesmarias eram latifúndios e foram a base do surgimento das primeiras cidades do Brasil colonial, servindo como um dos pilares da organização territorial, econômica e social durante os séculos. O Sesmeiro (aquele que recebia sesmaria) tinha a obrigação de torná-la produtiva dentro de um certo prazo de tempo. Para ser sesmeiro era obrigatório ser cristão e tornar a terra produtiva em até cinco anos, devendo e deveria pagar todos
 Sobre o desenvolvimento de infraestrutura, era essencial que os donatários desenvolvessem uma estrutura que fornecesse o mínimo de segurança para sua capitania; ou seja, o donatário deveria garantir a defesa da capitania contra ataques de indígenas e estrangeiros. 
A CAPITANIA DE SÃO VICENTE: 
Mesmo antes da divisão oficial das capitanias (1534), o rei de Portugal enviou Martim Afonso de Sousa para explorar e criar meios de defesa no extremo sul do território, no limite com as terras espanholas (os mapas da época, devido à imprecisão, indicava a capitania de São Vicente  como limite do Tratado de Tordesilhas). Em 1531, Martim Afonso de Sousa fundou a vila de Cananeia e no ano seguinte a de São Vicente, que se tornou o centro de sua futura capitania. Muitos historiadores consideram São Vicente  como a primeira vila do  Brasil, enquanto outros consideram Cananeia como a pioneira, a qual teria sido fundadada em 1531. A introdução da cultura da cana-de-açúcar e a construção de engenhos contribuíram para o desenvolvimento da agricultura e do comércio na região.Embora São Vicente tenha sido pioneira na produção açucareira, a topografia acidentada da região dificultava a expansão das lavouras: era a Serra do Mar, uma imensa barreira física que limitava a expansão das áreas cultiváveis, restringindo a produção agrícola às áreas litorâneas e aos vales próximos à costa, fatos que impediam que a capitania se tornasse um grande produtor como foi Pernambuco e como seria mais adiante a Bahia. Mesmo assim, São Vicente destacou-se juntamente com Pernambuco como as duas capitanias que lograram êxito. 

A CAPITANIA EXITOSA: PERNAMBUCO
As causas do sucesso:
- Solo de Massapê do litoral: excelente para a agricultura, extremamente fértil, que retém umidade mesmo em períodos de seca, tornou-se excelente para a plantação de cana.  
- Proximidade com a Europa: Geograficamente, Pernambuco está bem mais próximo da Europa, fato que que reduzia custos e tempo de navegação.
- Interesse e Investimento por parte da Gestão:

Diferente de outras capitanias que fracassaram, a de Pernambuco contou com a presença e o interesse dos donatários Duarte Coelho e sua esposa Brites de Albuquerque. Duarte Coelho foi uma exceção entre os donatários. Ele era um militar experiente que conquistou possessões portuguesas na Índia e no Sudeste Asiático. Durante suas expedições no Oriente, acumulou uma fortuna considerável através do comércio de especiarias e saques de guerra. Contraiu empréstimos também junto ao capital holandês.  Em troca, os holandeses ganharam o direito de  transportar o açúcar bruto: uma parte para  Portugal (o açúcar mais bruto, o “mascavado”) e outra para a Holanda, onde era refinado, embranquecido e revendido com muito mais
 No final do século XVI, Pernambuco se tornou o maior produtor mundial de açúcar.

Em 1535, ao chegar a Pernambuco,  Duarte Coelho instalou-se primeiramente em Igarassu e só depois em Olinda, que se tornaria o centro administrativo da capitania.
Duarte Coelho era pragmático: após alguns conflitos com grupos indígenas, ele percebeu que, se continuasse em guerra não conseguiria obter sucesso nem sobreviver. Sendo assim, procurou estabelecer alianças com grupos indígenas locais, como os Caetés, através de seu sobrinho, Jerônimo de Albuquerque, que casou com a filha de um importante líder Tabajara, consolidando assim uma aliança estratégica entre portugueses e  Tabajaras. Esse casamento, além de estabelecer uma aliança, também se tornou um dos primeiros registros de miscigenação no Brasil.
Merece destaque a figura de sua esposa, Brites de Albuquerque, que passou para a história como a primeira mulher governante da Capitania de Pernambuco, logo após assumir o comando da Capitania em 1554, após a morte do Donatário.

A CAPITANIA DA BAHIA  
Ao contrário de Duarte Coelho, o donatário Francisco Pereira Coutinho empreendeu diversas ações contra grupos indígenas da região, tais como os Tupinambás e os Aimorés, que resistiram à colonização. Francisco Pereira Coutinho fracassou em suas tentativas e teve um fim trágico, ao ser capturado, morto e devorado pelos Tupinambás em 1547.
O fracasso da Bahia e de outras capitanias foi o "alerta vermelho" para Portugal. O rei Dom João III percebeu que, se não interviesse, perderia o Brasil para os indígenas ou para os franceses. Em 1549, a Coroa decidiu que era necessária a criação de um Governo Geral no Brasil.

A RESISTÊNCIA INDÍGENA À ESCRAVIDÃO
Índio: é um termo genérico e muitas vezes pejorativo, originado do erro dos colonizadores europeus
Indígena: (do latim indi-gen "nascido ali") é o termo correto para se referir aos povos originários e nativos.
A presença europeia na América portuguesa resultou no encontro entre duas culturas completamente diferentes. O europeu não entendia o modo de vida indígena e vice-versa. A situação dos indígenas era a pior possível: além das doenças trazidas pelo europeu, estavam sujeitos à captura e escravização no campo. Havia também outro problema: na cultura indígena a divisão social do trabalho determinava que a agricultura era tarefa feminina (enquanto a masculina era a da caça, coleta, guerra e defesa, construção de ocas, etc).
Os indígenas resistiram usando estratégias políticas para manter sua liberdade e soberania. Essas estratégias variavam: podiam ser a da guerra declarada, a guerra de emboscadas (ou de movimento) e as alianças com os europeus.  estratégia era uma espécie de jogo de xadrez que alternava entre a guerra total e a diplomacia das alianças.
As Guerras de Movimento: Conhecendo profundamente a mata, os indígenas passaram a  realizar ataques rápidos seguidos de fuga para o interior das matas, região pouco conhecida pelo português. Alémn disso, eles queimavam plantações de cana e destruíam as moendas (a parte mais cara do engenho), atingindo o "bolso" do colonizador.

A Guerra através da Alianças diplomáticas: Era usada principalmente contra grupos indígenas rivais. Consistia em aliar-se aos portugueses (ou franceses) para destruir uma nação rival. É a política conhecida como “O Inimigo do meu Inimigo é meu amigo”: Os Tabajaras em Pernambuco e os Temiminós no Rio de Janeiro (liderados por Arariboia) aliaram-se aos portugueses com o objetivo de garantir que seu povo não seria escravizado ; em troca, ajudavam os portugueses a escravizar seus inimigos tradicionais.
A Confederação dos Tamoios (1554–1567):
Ocorrida no litoral entre São Paulo e Rio de Janeiro, foi um exemplo desta aliança política e militar:
De um lado estavam os Tupinambás, Tupiniquins, Aymorés e Goitacazes aliados com os franceses
Do outro lado estavam os Temiminós aliados com os portugueses.

Negociação de Status: Ao se tornarem "Índios Aliados", os chefes indígenas recebiam títulos, roupas europeias e até patentes militares. Eles usavam essa posição para proteger sua comunidade da escravidão ilegal nas mãos de colonos particulares.
A Fuga para o Interior (Sertão): Conforme o litoral ficava perigoso, comunidades inteiras migravam para o interior, para áreas de difícil acesso, onde a logística portuguesa não conseguia chegar.
Os indígenas, mas essa tentativa resultou em diversos conflitos e mortes. Além da desumanização do ser humano, na cultura indígena não existia o costume de um homem trabalhar para outro, mesmo não sendo escravo...além disso, o trabalho agrícola era tarefa feminina; o trabalho masculino era caçar, pescar, guerrear, construir aldeias, defender seu povo, etc.

O Fracasso das Capitanias: 
A colonização começou, mesmo de forma precária, embora de quinze capitanias, apenas duas tenham obtido sucesso: São Vicente e Pernambuco. O fracasso está relacionado com múltiplos fatores: o gigantesco custo inicial, a demora para lucrar, as enormes distâncias, o isolamento, os ataques dos índios, a inexperiência dos donatários, o desinteresse de alguns donatários, etc. Para substituir as Capitanias, Portugal implantou o Sistema do Governo Geral

 GOVERNO GERAL: 
Foi uma medida político-administrativa adotada pelo rei Dom João III, em 1548, com o objetivo de colonizar de maneira efetiva o Brasil, através de um governo centralizado, o qual seria responsável pela administração das capitanias. As capitanias não foram extintas: elas passaram a responder ao governador. O primeiro governador geral, Tomé de Sousa chegou na Capitania da Bahia em 1549, local escolhido como sede do governo por localizar-se mais ou menos na metade do território.Os três primeiros governadores gerais que administraram o Brasil Colônia foram: Tomé de Souza (1549 a 1553), seguido de Duarte da Costa (1553 a 1558) e Mem de Sá (1558 e 1572). Além do cargo de governador-geral, a Coroa Portuguesa também ordenou a criação de uma série de outros cargos para auxiliar a administração: Os mais conhecidos eram: 
Ouvidor-mor: responsável pelos assuntos de natureza jurídica e pela aplicação das leis na colônia. 
Provedor-mor: responsável pelos assuntos financeiros, pelo controle do orçamento e pela arrecadação de impostos. 
Capitão-mor: responsável pela defesa da colônia contra invasores estrangeiros e indígenas. Eram atribuições do Governo Geral:
Defender o território, expulsar os franceses ou outros estrangeiros, atrair colonos e empreendimentos, efetivar o povoamento, fundar vilas e cidades, catequizar e defender os índios contra a escravização, fundar casas da câmara, explorar o território em busca de riquezas, estimular a economia, cobrar impostos, etc.

GOVERNO TOMÉ DE SOUSA (1549 - 1553) Trouxe aproximadamente 1000 pessoas em sua chegada, a maioria com a missão de construir a cidade de Salvador. 
Algumas ações:
-Fundou a cidade de Salvador em 29 de março de 1549, a qual foi cercada por uma muralha de taipa com quatro torres de artilharia.
-Promoveu acordos de paz com os indígenas.
-Trouxe os primeiros jesuítas para o Brasil, sob o comando de Manuel de Nóbrega, com o objetivo de catequizar os índios.
-Investiu no melhoramento do sistema de defesa do litoral brasileiro construindo fortes e fundando vilas em zonas litorâneas.
-Criou o primeiro bispado
-Introduziu a pecuária ao trazer gado de Cabo Verde.

GOVERNO DUARTE DA COSTA (1553-1558) foi um governo conturbado marcado por diversos problemas:
- ele permitiu que os colonos escravizassem todo e qualquer indígena, fato que gerou sérios atritos com os Jesuítas e com o bispo Fernandes Sardinha
- outro conflito com o bispo teve como causa a conduta do filho de Duarte, Dom Álvaro da Costa, conhecido por seu comportamento escandaloso e violento, tendo se envolvido até em  assassinatos. 
- durante seu governo houve a fundação do Colégio dos Jesuítas na vila de São Paulo, com o apoio dos padres José de Anchieta e Manuel da Nóbrega, dia 25 de janeiro de 1554. 
- combateu os franceses no Rio de janeiro, os quais haviam fundado a  “França Antártica”.

GOVERNO MEM DE SÁ (1559 - 1572)
foi um governo marcado pelo combate aos franceses no Rio de Janeiro. Fundou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Promoveu alianças com nações indígenas, ao mesmo tempo em que reprimia aquelas consideradas hostis.Apoiou os jesuítas, especialmente na catequese e na defesa dos nativos. Sua administração organizou a economia açucareira e melhorou a infraestrutura colonial. Mem de Sá deixou um legado de estabilidade, consolidando o domínio português no Brasil. 
O PAPEL DOS JESUÍTAS: Os jesuítas atuaram tanto na defesa e catequese dos indígenas quanto na educação.  Fundaram missões (ou reduções) onde os índios aprendiam técnicas agrícolas, carpintaria, língua portuguesa, etc. Na educação, criam algumas escolas, como o Colégio da Bahia e o do Rio de Janeiro, formando elites coloniais e difundindo o conhecimento europeu. Sua atuação, porém, gerou conflitos com colonos e autoridades, que viam suas ações como um obstáculo à exploração da mão de obra indígena.

A ECONOMIA COLONIAL: O MERCANTILISMO
Mercantilismo era o modelo econômico da época. Tinha como base as seguintes características:
- Pacto Colonial: Era o conjunto de regras que determinava que a economia colonial não era livre: estava subordinada à metrópole; na prática, a colônia existia apenas para atender a metrópole com matéria prima e tudo o que fosse necessário. A colônia não poderia concorrer com a metrópole, por exemplo, produzindo o que a metrópole produzia. Em troca, a metrópole fornecia artigos manufaturados através do monopólio comercial.  
- Metalismo ou Bulionismo: era o acúmulo de ouro ou prata. Naquela época, muitas moedas  eram literalmente feitas desses metais. O peso e a pureza eram parte da confiança. Moedas de menor valor utilizavam cobre. As moedas de ouro eram mais  usadas para transações de maior valor. As moedas de prata eram mais comuns no dia a dia comercial, embora tenham se transformado na espinha dorsal do comércio internacional após a chegada maciça da prata americana via Império Espanhol. O peso e a pureza eram parte da confiança. Quanto mais acúmulo de ouro e prata o país tivesse, mais rico seria. Para obtê-los, só através de sua extração nas minas coloniais (caso tivesse) ou do comércio. É por isso que a exportação era tão importante para a metrópole. Quanto mais exportação, mais ouro e prata nos cofres, mais saldo favorável na balança comercial e menos dívidas.  

- O Monopólio comercial: visava garantir a acumulação de capital pelo Estado e por um pequeno grupo de comerciantes que eram amigos do rei. Esse monopólio se manifestava de duas formas principais:

   1 -  Exclusivo Metropolitano: A colônia era proibida de comercializar com outras nações; os portos eram fechados para navios estrangeiros, obrigando o Brasil a negociar apenas com Portugal.
   2 -  Companhias de Comércio: O governo concedia a algumas empresas o monopólio empresarial, ou seja, o direito exclusivo de vender produtos para a colônia e de comprar sua produção. Os produtores locais (como os senhores de engenho) eram proibidos de vender seu açúcar, tabaco, algodão, etc., para qualquer outra pessoa que não fosse a Companhia autorizada. Como não havia concorrência, a Companhia ditava o preço, pagando o valor mínimo possível ao produtor, já que ele não tinha para quem mais escoar a mercadoria. Para os produtores coloniais, a única opção para obter mais lucro era recorrer 
ao contrabando. 
Consequência: Enquanto para a Coroa essa prática garantia a arrecadação de impostos e lucros certos, para os colonos o sistema era asfixiante, pois a ausência de concorrência permitia que a metrópole impusesse preços baixos na compra e valores abusivos na venda.
- Portos Fechados: só os navios portugueses ou autorizados pelo Estado poderiam fazer negócios nos portos. Na prática, o produtor vendia açúcar (ou outras mercadorias) à metrópole por preço controlado, pagava impostos e taxas alfandegárias e comprava manufaturas portuguesas mais caras.
 -Protecionismo Alfandegário: eram medidas tomadas pela metrópole para dificultar ou proibir artigos importados de outras nações. Só se importava aquilo que era essencial à nação. Os importados permitidos estavam submetidos à taxação na alfândega. Esse protecionismo era essencial tanto para impedir o déficit na Balança Comercial quanto para evitar o fechamento de empresas e o aumento do desemprego na metrópole. 
-Balança Comercial Favorável (superávit): era necessário exportar mais do que importar, ou seja, o protecionismo era essencial para que houvesse superávit e dessa forma garantir a entrada de mais ouro e prata nos cofres do Estado.

O INÍCIO DA EXPLORAÇÃO ECONÔMICA NA COLÔNIA
Com um clima tropical e situado bem longe da Europa, era inviável produzir no Brasil qualquer coisa que já fosse produzida em Portugal (exemplo: trigo, cevada, aveia, azeite, uva, etc). A exploração colonial do Brasil só geraria lucro se:
A) fossem produzidos artigos tropicais que tivessem pouca ou nenhuma  concorrência...o açúcar era disparado o artigo mais procurado...em seguida vinha o tabaco e o algodão.
b) fosse produzido através do sistema de Plantation: é um modelo de produção agrária em larga escala, tendo como características principais:-monocultura- latifúndio - trabalho escravo e produção destinada em sua maior parte para a exportação. O restante era destinado ao mercado interno. Através do plantation era possível uma elevada produção com menos custos não somente o açúcar como também outras culturas tais como o fumo, o algodão, etc.

A DIFICULDADE DE MÃO DE OBRA
- O clima tropical e o árduo trabalho em um engenho não estimulava os portugueses a virem para a colônia. Além disso, trazer europeus na quantidade necessária sairia caro; eles só viriam se o salário fosse compensador, algo que tornaria o negócio inviável em termos econômicos. 
- escravizar o indígena resultou em diversos conflitos sangrentos. O donatário da capitania da Bahia, Francisco Pereira Coutinho foi preso e devorado pelos Tupinambás, em 1547. 
- para tentar proteger o indígena, a Igreja fez um acordo com a Coroa portuguesa para impedir a  escravização, a qual só ocorreria no caso de guerra justa (quando os índios atacassem primeiramente os colonos). Mesmo assim, a escravidão indígena foi praticada principalmente na atual região Sudeste, que na época do ciclo do açúcar era mais pobre do que o Nordeste e não tinha capital suficiente para comprar escravos africanos. 
- a solução da mão de obra para os engenhos foi usar a antiga prática escravagista dos árabes: o comércio de escravos africanos. para obter os escravos, os traficantes recorriam geralmente aos reinos e líderes tribais africanos, os quais capturavam inimigos de seu povo e os trocavam por armas, pólvora, aguardente, fumo, etc.

A ESCRAVIDÃO AFRICANA
Na África, assim como na maior parte do mundo, muitos grupos humanos eram inimigos e na Africa não foi exceção. A gigantesca África é um dos continentes mais multiétnicos e culturalmente diversos do planeta. São faladas mais de 2.000 línguas diferentes no continente, o que representa cerca de 30% dos idiomas do mundo. A diversidade genética de suas populações é maior do que a de qualquer outro continente no mundo...sendo assim, não havia havia a ideia de ser africano... os africanos nunca se reconheceram como irmãos ou pertencentes a um só povo...havia muita rivalidade e guerras por territórios, riquezas e escravos.
Rivalidades como Fonte de Escravizados: A guerra entre reinos e grupos étnicos africanos serviu como uma grande fonte de obtenção de cativos, muito antes da chegada dos europeus. Líderes poderosos capturavam inimigos como meio de vingança, punição social ou controle territorial.

Tráfico Árabe e Interno (Séculos VII-XX): Cerca de mil anos antes do tráfico europeu, já existia um intenso comércio de escravos, com rotas transasrianas e no Oceano Índico organizadas pelos islâmicos desde o século VII. Os escravizados eram, em grande parte, perdedores dessas guerras locais. Os europeus copiaram os árabes. Reis e líderes africanos intensificaram a captura de inimigos de etnias rivais para trocá-los por bens como armas de fogo, tecidos, fumo, bebidas, etc.

Causas do uso do escravo africano no Brasil:
- o elevado lucro o tráfico: o escravo africano era mais caro que o escravo indígena. Além disso, o açúcar e o ouro geraram muita riqueza, mas o tráfico de escravos era o "negócio dos negócios" porque ele era o motor que permitia todos os outros existirem. Muitos dos maiores traficantes eram brasileiros, incluindo negros e mestiços. Temos dois exemplos:
- Francisco Félix de Souza (o "Chachá"): Talvez o caso mais famoso. Ele era um mestiço baiano que se tornou rico e conselheiro de reis locais através do intenso tráfico de cativos para o Brasil. 
- Agudás: Eram descendentes de ex-escravizados afro-brasileiros que retornaram da Bahia ao Benim; alguns formaram uma elite comercial e enriqueceram através do comércio de cativos para o Brasil.
- a necessidade de mão de obra  qualificada:  muitos grupos africanos (como os das regiões de Gana, Nigéria e Angola) já dominavam a agricultura e a metalurgia. Muitos já conheciam sistemas de cultivo
intensivo e a criação de gado.

- o declínio da população indígena: Diferente do que muitos pensam, a maioria das mortes dos indígenas não foi causado por guerras, mas por doenças. Sem anticorpor, os nativos americanos morriam facilmente ao contrar resfriados, gripes, sarampo, etc. 

A ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL (OU SOCIEDADE AÇUCAREIRA): este termo refere-se de maneira geral ao período em que o açúcar, sendo a mercadoria mais lucrativa, passou a identificar a sociedade da época. Como era a estratificação social no início do Brasil colonial:
a) a "Nobreza da terra" ou "aristocracia rural": Não eram nobres, mas eram assim chamados devido à riqueza obtida principalmente com os lucros do açúcar. Essa "nobreza"  tinha alguns privilégios: 
- dominavam a Câmara Municipal, onde eram chamados de "homens bons"
- tinham acesso aos cargos de magistratura e altas patentes militares.
Grande parte dessa nobreza tinha origem nas mais antigas famílias, que eram donas de sesmarias, engenhos de açúcar ou fazendas.
- Essa nobreza era de maneira geral patriarcal, embora tenham existido também  matriarcas.

b- Homens livres: de maneira geral eram funcionários públicos, militares, colonos qu possuíam pequenos lotes de terra, capatazes, artesãos, agregados (moradores do engenho que prestavam serviços em troca de proteção e auxílio), etc.

c- indígenas: foram escravizados à força, resistiram e passaram a ter a defesa dos jesuítas. Logo no início do contato com os europeus, milhares de índios morreram devido à falta de imunidade para algumas doenças tais como varíola, sarampo, febre amarela ou mesmo a gripe...além disso, cooperou também os hábitos coletivos e a falta de tratamentos adequados.
d- escravos africanos: Faziam todo o tipo de trabalho:  lavoura, construção civil, serviço doméstico, etc. O escravo era habitualmente chamado "os pés e as mãos" do senhores...sem eles o Brasil açucareiro não teria existido. Sua expectativa de vida era pequena, em média 35 a 40 anos, dependendo da dureza do serviço. Resistiram à escravidão através de revoltas e fugas.

A Resistência à escravidão: o escravo não aceitou passivamente a escravidão. A resistência negra foi marcada por diversas formas de luta, tanto individuais quanto coletivas. As principais formas de resistência foram: 
- fugas 
- sabotagens
- mocambos e quilombos: eram dois modelos de comunidades formadas por escravizados fugitivos. Vamos ver as diferenças:
Mocambo: Era geralmente menor e menos organizado, consistindo em pequenos agrupamentos temporários de escravizados fugitivos. Eram mais comuns em áreas próximas às fazendas e tinham uma estrutura menos complexa.
Quilombo: Era maior e mais organizado, podendo abrigar centenas ou até milhares de pessoas. O Quilombo dos Palmares, por exemplo, era uma rede de várias comunidades e durou quase um século, com uma estrutura social e política complexa. 
- Banzo (profunda depressão que levava o escravo à morte);
- Sabotagem do engenho 
- Fuga e criação de mocambos e quilombos
- Suicídio
- Aborto
- Magia
- Batuques

- As Irmandades católicas: 
Antecedentes:
- a Igreja estava profundamente integrada ao Estado português através do regime do Padroado, que era um acordo formal entre as duas instituições. Igreja e Coroa funcionavam quase como engrenagens do mesmo relógio. A economia dependia do trabalho escravo. Questionar a escravidão era questionar o próprio sistema colonial. Houve vozes isoladas de crítica, mas não um movimento abolicionista naquele período. Sendo assim, a Igreja Católica, que já possuía alguns santos de origem negra (Sao Benedito, São Maurício, Santa Efigênia, São Elesbão, Santo Antônio de Categeró, etc., reconheceu a natureza espiritual do africano e incentivou o batismo e a integração religiosa...mas, ao contrário da luta contra a escravidão indígena, não combateu a escravidão negra.
Durante o Brasil colonial, os escravos africanos, ao chegarem ao Brasil (ou até antes), recebiam um novo nome e eram batizados. Isso fazia parte da lógica religiosa e da lógica jurídica do sistema. A Igreja exigia que senhores providenciassem o batismo. Ao ser batizado, o escravizado recebia um nome cristão (José, Maria, Antônio, etc.). O sobrenome poderia ou não estar ligado ao seu senhor ou poderia ser uma designação de sua origem: “da Costa”, “Angola”, “Benguela”, “Mina”, etc.
No mundo português, as irmandades eram associações leigas ligadas à Igreja que organizavam festas religiosas, cuidavam de enterros dignos, ajudavam membros doentes, pobres, viúvas, órfãos,  mantinham capelas e altares, etc.
As Irmandades negras foram aceitas pela Igreja porque estavam sob seu controle, não eram  oficialmente subversivas e reforçavam o catolicismo.
Criar uma irmandade era uma forma de ocupar espaço, e num mundo escravista, ocupar espaço já era um gesto significativo. As Irmandades negras eram formadas formadas por  escravizados, libertos e seus descendentes. Na prática, eram também redes de proteção, identidade e sobrevivência.
A primeira irmandade negra católica no Brasil, a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, foi fundada em Olinda, em Pernambuco, em meados do século XVI.
O surgimento dessas irmandades foi motivado por uma conjunção de fatores sociais, religiosos e políticos.

A Sinceridade do Catolicismo Negro: O negro colonial não era apenas um africano "disfarçado". Com o passar das gerações, surgiu uma identidade nova: o Afro-Brasileiro. Muitos eram devotos reais dos santos católicos, especialmente daqueles com os quais se identificavam (como São Benedito e Nossa Senhora do Rosário). Não era uma mentira; era uma apropriação. Eles transformaram o catolicismo em algo que também lhes pertencia.

 Entre as principais causas da criação das Irmandades, destacam-se: 
- A Negociação de Espaço: As irmandades eram o único lugar onde o negro tinha existência legal reconhecida pelo Estado e pela Igreja. Eles usavam a religião oficial para negociar sua humanidade dentro de um sistema desumano.
- Exclusão Religiosa e Social: Os negros escravizados e libertos eram marginalizados nas igrejas, onde ocupavam os piores lugares (como os fundos ou varandas). As irmandades surgiram como espaços de acolhimento dentro da estrutura católica, permitindo que praticassem sua fé com dignidade.
- Necessidade de Assistência Mútua: Em uma sociedade escravista, os negros não tinham acesso a direitos básicos. As irmandades ofereciam: 
Enterros dignos (evitando valas comuns para escravizados).
Auxílio financeiro para alforrias e doenças.
Proteção legal em disputas judiciais (algumas irmandades tinham advogados).
- Preservação Cultural Africana: Muitas irmandades eram organizadas por "nações" (grupos étnicos como nagôs, jejes, bantos), permitindo a manutenção de tradições sob o disfarce do catolicismo.
Práticas como coroações de reis negros, festas e ritos fúnebres mesclavam símbolos cristãos com cultos africanos (ex.: devoção a Nossa Senhora do Rosário, associada a Iemanjá no Candomblé).
- Estratégia de Resistência: Embora submissas à Igreja, as irmandades eram espaços de autonomia relativa, onde negros podiam exercer liderança e construir redes de solidariedade. 
Algumas irmandades apoiavam fugas ou acobertavam quilombolas, usando sua estrutura para arrecadar fundos e informações. 
- Pressão Demográfica e Urbanização: No Nordeste açucareiro, o crescimento das cidades (como Salvador e  Olinda) concentrou grandes populações negras, facilitando a organização dessas associações. 
Em resumo, as irmandades negras surgiram da intersecção entre opressão e agência negra: uma resposta à violência do colonialismo, mas também uma forma de negociar espaços de poder e sobrevivência dentro dele.

 ALGUMAS FONTES:

Casa-Grande & Senzala – Gilberto Freyre

Formação do Brasil Contemporâneo – Caio Prado Júnior. 

O Trato dos Viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul – Luiz Felipe de Alencastro 

Escravidão (Trilogia) – Laurentino Gomes.

Ser Escravo no Brasil – Katia de Queirós Mattoso. 

Rebelião Escrava no Brasil – João José Reis.

A Enxada e a Lança – Alberto da Costa e Silva. 

Cultura e Opulência do Brasil (1711) – André João Antonil. 

Jean de Léry – Viagem à Terra do Brasil (1578)

Gabriel Soares de Sousa – Tratado Descritivo do Brasil (1587)

Vera Ferlini – Terra, Trabalho e Poder

Frédéric Mauro – Portugal e o Atlântico

Manuela Carneiro da Cunha – História dos Índios no Brasil

João José Reis  - A Morte é uma Festa

Mariza de Carvalho Soares - Devotos da Cor

Célia Maria Marinho de Azevedo - Trabalhos sobre escravidão e identidade negra.

domingo, 5 de fevereiro de 2023

DESCONSTRUÇÃO DA MAIS-VALIA

 

Ludwig von Mises, um economista austríaco do século XX, contestou a teoria da mais-valia proposta por Karl Marx. Segundo Mises, a mais-valia é uma ilusão criada pelos erros conceituais de Marx. Por que é uma ilusão?

1 - O valor de uma mercadoria não é determinado pelo tempo de trabalho necessário para produzir a mercadoria, como afirmava Marx
2 - O valor da mercadoria está na preferência do consumidor...se o consumidor não a compra, de nada valeram as horas trabalhadas pelos empregados.
3 - O lucro é uma recompensa pelo risco do negócio.
4 - o empregado recebe seu salário mensalmente, mesmo que a mercadoria esteja em estoque aguardando os pedidos de compra., ou seja, mercadoria produzida não significa vendas e lucros, pois depende do consumidor. Mesmo que a mercadoria fique estocada durante meses, o trabalhador receberá seu salário.
5 - Ao ser contratado, o empregado não teve custo algum para criar uma empresa a partir do nada, como ocorre com o empreendedor.
4 - O que  Marx não sabia ou sabia e desprezou para não comprometer sua falácia:
-os altos custos na compra de máquinas e equipamentos para a montagem da fábrica...o empresário poderia aproveitar o dinheiro que tinha e viver com a renda dos juros...mas preferiu arriscar, pois todo negócio envolve riscos...
- o tempo: o empresário, ao longo do tempo, economizou dinheiro para poder abrir um negócio, ou seja, poderia ter gastado em supérfluos ou em ostentação, já que a vida é curta e não sabemos o dia em que iremos morrer. 
- a demora em começar a lucrar... a maioria dos negócios em seu início sofre com perdas, com prejuízos até começar a melhorar...tudo isso não foi levado em conta...o empresário  preferiu arriscar tudo em uma atividade que pode ou não dar certo...muitos empresários  foram à falência...já o trabalhador chegou na empresa após todo o investimento...sendo assim, não há como justificar o fato de que ao se executar algumas funções durante 8 horas de trabalho justifique o direito de repartirem todo o lucro da empresa.
5 - Mises também argumentava que o capitalismo não resultava na divisão crescente da sociedade em classes ricas e pobres, mas sim na prosperidade crescente de todas as classes, como ocorreu em países de economia liberal, como a Inglaterra, EUA, Japão, etc.
6 - A teoria de Marx foi baseada em conceitos equivocados, pois a economia no livre mercado resulta na prosperidade geral, não na exploração dos trabalhadores.