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quarta-feira, 11 de maio de 2022

ESTRUTURA E ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL

Conceito: é a forma ou maneira pela qual a sociedade está organizada, através da inter-relação e posição (status social) de seus membros. Ela é determinada por diversos fatores, dentre os quais econômico, político, social, cultural, histórico e religioso.

A estrutura social é também a organização e arranjo das relações sociais em uma sociedade. Ela engloba as diferentes posições e papéis desempenhados pelos indivíduos e grupos, bem como as interações e padrões de relacionamento que ocorrem dentro de uma determinada sociedade.

CARACTERÍSTICAS DA ESTRUTURA SOCIAL:
    Hierarquia: Há diferentes níveis de poder, prestígio e privilégios entre os indivíduos e grupos. Essa hierarquia tem como base critérios como classe social, ocupação, status, gênero, etnia, entre outros.
    Papéis sociais: Através da estrutura, temos os papéis sociais que as pessoas desempenham na sociedade, tais como pai, filho, avó, mãe, trabalhador, chefe, empregado, professor, estudante, líder, liderado, etc. Esses papéis são influenciados por normas, expectativas e valores sociais e variam de acordo com o contexto cultural e histórico.
    Instituições sociais: É o sustentáculo da estrutura social. Exemplos: a família, a escola, a empresa, a religião, repartições públicas, etc. Essas instituições regulam os comportamentos, orientam e impõem normas e regras.
    Divisão do trabalho: Há uma diversidade de tarefas e funções de acordo com suas habilidades, conhecimentos e recursos e isso é essencial para a eficiência e organização social, permitindo a especialização e a cooperação entre os indivíduos.
    Interdependência social:  As ações das pessoas afetam ou podem ser afetadas pelos demais membros da sociedade, através de uma gigantesca e complexa rede de relações sociais que inclui interações, conexões e dependências mútuas.

É importante ressaltar que a estrutura social pode variar de uma sociedade para outra, e também pode passar por mudanças ao longo do tempo em resposta a transformações sociais, políticas, econômicas e culturais.

ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL: É a divisão hierárquica da sociedade através dos diferentes estratos ou camadas. De maneira geral, são os seguintes os critérios utilizados para determinar a estratificação social:
    Classe social: tem como base a posição econômica, a posse de bens, o poder aquisitivo e de consumo. Geralmente, as classes sociais são divididas em alta, média e baixa.
    Status social: está baseado no prestígio, reconhecimento e posição ocupada pela pessoa na sociedade. Esse status pode estar relacionado à profissão, formação, estilo de vida, patrimônio cultural, etc. O indivíduo pode ser rico e não ter prestígio social. Exemplo: alguém que ficou rico de maneira antiética, através da corrupção, prostituição, contrabando, agiotagem, etc.
    Ocupação: tem como base a natureza do trabalho, o nível de qualificação e a remuneração associada a determinada ocupação.
    Idade: ter mais ou menos idade pode ser um critério para melhor ou para pior, dependendo do contexto social e econômico. Exemplos: os idosos tem mais dificuldade para conseguir emprego em empresas privadas, fato que não acontece em algumas setores do serviço público. Idosos tem preferência em filas e estacionamentos.
    Acesso à educação: A disponibilidade e a qualidade da educação podem desempenhar um papel importante na estratificação social, influenciando as oportunidades e o sucesso futuro de um indivíduo.

Para entender a estratificação em cada sociedade é necessário verificarmos como ela organizou ao longo do tempo sua estrutura econômica e política, as quais sofreram influência da cultura, da religião, das tradições, usos, costumes, etc. 

A estratificação social ao longo do tempo e em diversos povos, produziu três modelos ou tipos:
- Castas
- Estamentos
- Classes

As sociedades organizadas em castas

o sistema de castas é uma configuração social de que se tem registro em diferentes tempos e lugares. No mundo artigo, há vários exemplos desse modelo (na Grécia e na China, entre outros lugares). Mas é na Índia que está a expressão mais acabada desse sistema.

A sociedade indiana começou a se organizar em castas e subcastas há mais de 3 mil anos, adotando uma hierarquização baseada em religião, etnia, cor, hereditariedade e ocupação. Esses elementos definem a organização do poder político e a distribuição da riqueza gerada pela sociedade. Atualmente, mesmo sendo proibida pela Constituição desde 1950, o sistema de castas permanece na tradição de muitos indianos, o que representa uma dificuldade a mais para entender a questão. 

Pode-se afirmar, em termos genéricos, que existem quatro grandes castas na Índia: a dos brâmanes (casta sacerdotal, superior a todas as outras), a dos xátrias (casta intermediária, formada normalmente pelos guerreiros, que se encarregam do governo e da administração pública), a dos vaixás (casta dos comerciantes, artesãos e camponeses, que se situam abaixo dos xátrias) e a dos sudras (a casta dos inferiores, na qual se situam aqueles que fazem trabalhos manuais considerados servis). Os párias ou dalits são os que não pertencem a nenhuma casta, e vivem, portanto, fora das regras existentes. Entretanto, há ainda um sistema de castas regionais que se subdividem em outras tantas subcastas.

O sistema de castas caracteriza-se por relações muito estanques, isto é, quem nasce numa casta não tem como sair dela e passar para outra. Não há, portanto, mobilidade social nesse sistema. Os elementos mais visíveis da imobi­lidade social são a hereditariedade, a endogamia (casamentos só entre membros da mesma casta), as regras relacionadas à alimentação (as pessoas só podem se alimentar com os membros da própria casta e com alimentos preparados por elas mesmas) e a proibição do contato físico entre membros das castas inferio­res e superiores. Repulsão, hierarquia e especialização hereditária: estas são as palavras-chave para definir o sistema de castas, de acordo com o sociólogo francês Céléstin Bouglé (1870-1939), discípulo de Ourkheim.

Mas nenhum sistema é totalmente rígido, nem o de castas. Embora seja proibido, as castas inferiores adotam costumes, ritos e crenças dos brâmanes, e isso cria uma certa homogeneidade de costumes entre castas. A rigidez das regras também é relativizada por casamentos entre membros de castas diferentes (menos com os brâmanes), o que não é comum, mas acontece.

A urbanização e a industrialização crescentes e a introdução dos padrões comportamentais do Ocidente têm levado elementos de diferentes castas a se relacionarem. Isso vai contra a persistência dos padrões mais tradicio­nais, pois, no sistema capitalista, no qual a Índia está fortemente inserida, a estruturação societária anterior só se mantém se é fundamental para a sobrevivência do próprio sistema. No caso específico da Índia, o sistema de castas está sendo gradativamente desintegrado, o que não significa, entretan­to, que as normas e os costumes relacionados com a diferenciação em castas tenham desaparecido do cotidiano das pessoas. Confirma isso a existência de programas de cotas de inclusão para as castas consideradas inferiores nas universidades públicas.

A Sociedade Estamental (dividida em Estamentos)
Embora tenha existido por exemplo no Egito e Grécia antiga, foi a Idade média que mais a caracterizou. De maneira geral, a sociedade medieval estava dividida em três estamentos:

Nobreza: representava os que lutavam e defendiam a sociedade (Bellatores)
Clero: representava os que oravam e intercediam a Deus pela sociedade (Oratores)
Servos: representava os que trabalhavam por todos (Laboratores)

Essas três ordens eram vistas como complementares, onde cada uma delas prestava um serviço indispensável às demais.

Nesse modelo, as pessoas eram também classificadas pelo seu nascimento: ou era servo ou era nobre: os indivíduos eram diferenciados desde que nasciam, ou seja, os nobres tinham privilégios e obrigações bem diferentes dos servos, porque a desigualdade, além de existir de fato, transformava-se em direito.
O clero tinha origem em um dos dois estamentos, pois neste estamento não havia casamento, logo, a origem do clero estava no estamento dos servos e no estamento da nobreza.

Da mesma maneira, eram os servos que forneciam os soldados para o feudo.
Sendo assim, havia uma pequena mobilidade tanto dos servos quanto da nobreza no sentido de fornecer o contingente humano do clero e dos servos no sentido de fornecer militares para o feudo.
Para os servos, ser padre ou soldado era talvez a única oportunidade de melhorar de vida e deixar de viver na miséria como camponês preso à terra do senhor feudal.



SOCIEDADE DE CLASSES

O fim da sociedade estamental ocorreu a partir da decadência e fim da idade média, onde houve a expansão comercial e marítima. Essa expansão do comércio modificou a sociedade, criando a chamada sociedade de Classes ou Classes sociais.

Conceito de Classe social:
é um grupo constituído por pessoas com padrões econômicos semelhantes, onde o poder aquisitivo e a posse de bens são fatores determinantes da definição de classe social.


As classes sociais são de maneira geral divididas em três: A, B, C ou Alta, Média e Baixa.

- Alta: é a menor das três classes, mas é a que possui o mais alto padrão de vida, elevado poder de consumo e grande posse de bens.

-Média: em países mais ricos, é a classe predominante. Neste grupo, os indivíduos possuem um equilibrado padrão de consumo e um nível de escolaridade mais elevado. conseguem manter um equilíbrio econômico, garantindo todas as necessidades básicas. Na classe média as pessoas tendem a ter um nível de escolaridade mais elevado, como o ensino superior completo, por exemplo.

-Baixa: em países pobres, é a classe predominante. De maneira geral (pois varia de país para país), possuem baixo poder aquisitivo, poucas posses materiais, baixo padrão de consumo e menor grau de escolaridade. Em países ricos, essa classe possui melhores condições de sobrevivência e benefícios sociais do que em países pobres.

A MOBILIDADE SOCIAL: Na sociedade de classes há intensa mobilidade social, ou seja, as possibilidades de melhorar de vida são bem maiores, mesmo para os mais pobres, desde que se esforce através de muito estudo e trabalho. É claro que isso varia de país para país, pois há países onde os mais pobres tem mais possibilidades de melhorar de vida do que em outros. Isso ocorre em países onde há políticas governamentais voltadas para dar mais acesso à educação, saúde, estímulo ao empreendedorismo, etc.

A Estratificação em países socialistas:

Nos países socialistas, como Cuba e Coreia do Norte, a estratificação é diferente. Como as empresas pertencem ao governo, assim como as terras e as moradias, esses países desenvolvem hierarquias baseadas em outros critérios, como posição política, acesso a privilégios estatais e lealdade ao regime. É um sistema de estratificação mais complexo do que a simples ausência de classes, refletindo as particularidades de países com economia centralizada e dirigida pelo Estado.

Como funciona a estratificação nesses países?

-Classe dominante (Elite política e militar): Grupo no topo da hierarquia, composto por altos funcionários do partido único, líderes militares e grandes burocratas. Vivem no luxo e controlam os recursos do Estado e têm acesso a bens e serviços que são impossíveis para o resto da população (ex: casas de praia e de campo, viagens internacionais, carros de luxo, alimentos caros importados, etc.).

-Classe média e classe trabalhadora (Funcionários públicos, profissionais qualificados, trabalhadores em geral): Inclui médicos, professores, engenheiros, burocratas de nível médio, etc. Recebem salários baixos e dependem de sistemas de racionamento (como a libreta em Cuba ou a ração pública na Coreia do Norte) para poder comprar o básico para sua sobrevivência.

Sendo assim, a mobilidade social ascendente é muito difícil para quem não é da elite. Mesmo os que estudam e se formam como os médicos e engenheiros, não há perspectivas de uma diferenciação social maior em relação aos demais a não ser saindo de Cuba para viver em outros países.

Na prática, o socialismo acabou com a classe média, reduzindo a estratificação de três para duas, onde a elite vive no luxo e a maior parte do povo na miséria.

terça-feira, 10 de maio de 2022

MOBILIDADE SOCIAL

CONCEITOS: 

Segundo a Enciclopédia Britânica, mobilidade social é a movimentação de indivíduos, famílias ou grupos em um sistema social hierárquico, geralmente definido pela estratificação social. 

Segundo o sociólogo Anthony Giddens, mobilidade social é o “deslocamento de indivíduos e grupos entre posições socioeconômicas diferentes”. Esse movimento de indivíduos ou famílias dá-se dentro do sistema de classes sociais, estruturado conforme as categorias socioprofissionais.

Traduzindo, é a mudança de posição do indivíduo dentro da estrutura econômica e social,  melhorando ou piorando sua vida em termos econômicos, ou seja, a mensuração se dá através do poder aquisitivo e da posse de bens dos indivíduos.

A mobilidade social pode ser
a) vertical (ascendente ou descendente)
b) horizontal

MOBILIDADE VERTICAL ASCENDENTE: ocorre a partir da melhoria de vida do indivíduo oriundo de famílias menos favorecidas, o qual, através do estudo e trabalho, consegue obter remuneração melhor que os seus antepassados. 

MOBILIDADE VERTICAL DESCENDENTE: Segue o caminho inverso, ou seja, é a perda de renda, é o empobrecimento do indivíduo

MOBILIDADE HORIZONTAL: ocorre, por exemplo, quando o indivíduo muda de cargo ou de emprego, mas permanece com a mesma remuneração. Significa também a mudança de posição do indivíduo dentro de um grupo, no sentido de passar a ter mais autoridade e prestígio, embora sua remuneração permaneça a mesma.

A mobilidade social também pode ser
INTRAGERACIONAL: é a mobilidade social de uma determinada pessoa ou grupo de pessoas com características comuns, durante um período de tempo. Ou seja, em relação às posições ocupacionais anteriores, desde a entrada no mercado de trabalho, até a posição ocupacional presente. 

INTERGERACIONAL: é a que ocorre entre indivíduos de gerações diferentes 

A mobilidade social depende, de maneira geral, de três fatores:
a) renda: poder econômico
b) poder: autoridade
c) status: prestígio

Outros fatores que contribuem para a mobilidade social são
- idade
- etnia
- sexo
- escolaridade

As sociedades modernas, que se desenvolveram com o capitalismo industrial e a formação dos Estados burocráticos, são estruturadas em estratos, isto é, classes sociais. Nelas a mudança de posição socioeconômica é possível. A hierarquia social existe e é rígida, porém, não é imutável.


A mudança de status dentro dessa estrutura definida dá-se principalmente pela ampliação do tempo de estudo, pela mudança profissional, pela modificação no padrão de renda. Essa mudança é possível, principalmente, quando há políticas governamentais que promovam essas oportunidades aos cidadãos."


"Tipos de mobilidade social


Existem dois tipos de mobilidade social: horizontal e vertical.


    


Um exemplo disso ocorre em uma comunidade eclesial, em que os membros mais dedicados tornam-se auxiliares voluntários do líder religioso e, por isso, recebem uma honraria por meio de um título que os diferencia dos demais, como os diáconos nas comunidades cristãs.


    Mobilidade social vertical


Por sua vez, implica mudança de posição socioeconômica, portanto, envolve não só a dimensão simbólica e social, mas também o poder aquisitivo. Numa sociedade industrial moderna, estratificada conforme as profissões e com classes sociais definidas conforme a renda, a mobilidade vertical ocorre quando, por meio da ascensão profissional, o indivíduo consegue mover-se de uma faixa de renda para outra.


Por exemplo, o indivíduo da classe C que ingressa no Ensino Superior forma-se, torna-se um profissional liberal e migra para a classe B. O principal caminho para galgar mobilidade social vertical é a educação formal.


A mobilidade social vertical pode ser classificada em ascendente e descendente. A mobilidade ascendente ocorre quando uma pessoa desloca-se para uma posição superior na pirâmide socioeconômica. Já a mobilidade descendente ocorre quando alguém perde posições e desloca-se para uma posição social inferior.


Fatores que influenciam a mobilidade social

O principal fator de mensuração da mobilidade social é a renda. A ampliação ou destituição de riqueza é o principal desencadeador da mudança de classe para cima ou para baixo. O segundo fator, atrelado ao primeiro, é a ocupação. Sociedades modernas são caracterizadas pela complexidade. Para Durkheim, quanto mais complexa uma sociedade é, mais funções de trabalho ela terá. O surgimento de novos ofícios no processo produtivo é uma constante nessas sociedades.


Além disso, a estruturação do mundo do trabalho é a base para a configuração social como um todo, desde as relações humanas, a ação do Estado e até a divisão do espaço territorial, a disposição de bairros, e o acesso aos centros econômicos e aos serviços. Portanto, a profissão ocupa um lugar central na estratificação dessas sociedades, sendo que as profissões mais valorizadas geralmente são mais bem remuneradas e estão no topo da hierarquia.

O terceiro fator que influencia a mobilidade social é a educação formal. Quanto maior a escolaridade, maior a chance de profissionalizar-se nas atividades de maior prestígio social e com melhores salários."

"Mobilidade social no Brasil


O Brasil é o segundo país mais desigual do mundo. Quanto mais desigual é um país, menor é a sua mobilidade social, portanto, a mobilidade social no Brasil é baixa. Na sociologia brasileira, Celi Scalon é uma referência no estudo da mobilidade intergeracional e estratificação social no Brasil e como ela se distribui territorialmente (segregação espacial) e é justificada e reconhecida.


Um estudo, realizado nos anos 2000, que analisou a mobilidade no Brasil entre 1988 e 1996, sinalizou um pequeno crescimento da mobilidade intergeracional nesse período em razão, principalmente, da migração para áreas urbanas. Todavia, foi uma mobilidade de curta distância, isto é, não alterou o padrão de estratificação social do país, posto que o mercado de trabalho no Brasil é caracterizado por uma alta rigidez e as chances de progressão por meio da trajetória profissional são limitadas.


Os estratos ricos sustentaram sua posição ao longo do tempo, já para estratos assalariados houve uma piora nas carreiras profissionais e redução das possibilidades de progresso, especialmente para mulheres. A conclusão é que não houve mudança significativa nos padrões de mobilidade intra e intergeracional e na desigualdade no Brasil nesse período.


Conforme relatório do Fórum Econômico Mundial de 2020, num ranking de mobilidade social, entre 82 países, o Brasil está na 60ª posição. A nota do Brasil foi 52,1 numa escala de 0 a 100, sendo que o pior índice do país está na variável “distribuição justa de salários”. O Índice Global de Mobilidade Social considera fatores como:


    oportunidades de trabalho

    condições de trabalho

    distribuição justa de salários

    proteção social

    acesso à saúde e educação

    acesso à tecnologia e aprendizado ao longo da vida

    qualidade e equidade da educação

    instituições inclusivas


Esse relatório também mensura a mobilidade social ao calcular quantas gerações são necessárias para uma família de baixa renda atingir a renda média do país. Na Dinamarca, um dos países que lideram o ranking de mobilidade social, as famílias de baixa renda levam duas gerações para atingir a renda média. No Brasil, são nove gerações. O relatório aponta a má elaboração de políticas públicas como responsável pela permanência da desigualdade e da baixa mobilidade social.



Autoria: Milka de Oliveira Rezende

                    REZENDE, Milka de Oliveira. "Mobilidade social"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/mobilidade-social.htm. Acesso em 10 de maio de 2022.                 




sexta-feira, 28 de maio de 2021

BRASIL HOLANDÊS E UNIÃO IBÉRICA

UNIÃO IBÉRICA E BRASIL HOLANDÊS

Este assunto explica um dos períodos mais conturbados da história de Portugal e do Brasil. Portugal esteve sob comando da Espanha e o Nordeste brasileiro esteve sob ocupação da Holanda.  

- A União Ibérica (1580-1640): foi o período de 60 anos em que a coroa portuguesa ficou sob o comando da coroa espanhola.

A principal causa foi a crise sucessória portuguesa após o desaparecimento do jovem rei D. Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir (1578)...o rei não deixou herdeiros diretos. Seu sucessor era seu idoso  tio-avô, o cardeal D. Henrique, que morreu em 1580...o trono lusitano estava vago e quem o ocupou, com o apoio de uma parte da nobreza e da burguesia portuguesa,foi o rei espanhol Filipe II, que era neto do rei português D. Manuel I.

As Consequências da União Ibérica para o Brasil:
- a linha de Tordesilhas deixava oficialmente de ter valor legal, pois tudo era espanhol e português. Sendo assim, os luso-brasileiros aproveitaram para adentrar o vasto território que hoje faz parte do Brasil, o qual estava "abandonado" pelos espanhóis, que na época só se interessaram pelas terras onde encontraram metais preciosos (México, Peru e Bolívia, principalmente). A expansão territorial é vista com mais detalhes em um assunto específico.
- As más consequências da União Ibérica para Portugal:
- Portugal passou a ter como inimigos os seus antigos parceiros comerciais: Holanda e Inglaterra.
-Portugal, ao longo do tempo foi perdendo parte de seu rico império colonial, principalmente territórios na África e Ásia:
Ceilão (atual Sri Lanka), Malaca (Malásia),   Ilhas Molucas (Indonésia), Costa do Malabar (Índia) e Formosa (Taiwan), São Jorge da Mina (atual Gana, principal entreposto de ouro e escravizados), Arguim (Mauritânia),   Luanda e Benguela (Angola, que depois foram recuperadas).
Na América, a Holanda, durante 24 anos ocupou a maior parte do Nordeste.
-Portugal perdeu também a maior parte de sua grande frota naval mercantil e militar, ao ser obrigado a participar de conflitos comandados pela Espanha. 

A HOLANDA

Tendo sido no passado um território doado à Espanha, a Holanda (ou Países Baixos), estava em guerra pela sua independência - a Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648) - Predominava no país o protestantismo, fato que irritava ainda mais o rei espanhol Filipe II,  o qual buscava centralizar ainda mais o seu poder através da imposição do catolicismo.
A economia holandesa era bastante dinâmica e inovadora; o país era o centro financeiro da Europa e sua economia tinha como base três pilares: comércio marítimo, manufatura e finanças. Os holandeses tinham muito negócios com Portugal, principalmente no segmento açucareiro:
- Na Europa, refinavam o açúcar comprado em Portugal e o distribuíam no mercado europeu.
- Em Pernambuco, tinham muito dinheiro investido no financiamento de engenhos.
- A Holanda era uma espécie de “banco + indústria + logística” do açúcar brasileiro. 
Para prejudicar a economia holandesa, o rei espanhol Filipe II proibiu todo e qualquer comércio entre Portugal e Holanda, fato que afetava diretamente o lucrativo negócio do açúcar.

A reação holandesa:
A proibição espanhola mudou a política comercial batava: eles deixaram de ser comerciantes dependentes e passaram a ser conquistadores tentando controlar a produção. Algumas de suas decisões mais importantes foram:
a) Romperam o bloqueio na marra, atacando e saqueando portos portugueses e espanhóis.
c) contrataram corsários (piratas autorizados) para atacar e roubar navios espanhóis carregados de prata, principalmente na região do Caribe.
C) Criaram uma Companhia encarregada de conquistar e administrar as conquistas: a WIC (Companhia das Índias Ocidentais): era uma “megaempresa de guerra e comércio”, uma mistura de banco, exército e empresa. Seus principais objetivos eram

-atacar os interesses da Espanha e de Portugal;

-controlar rotas comerciais no Atlântico;

-lucrar com açúcar, escravizados e outros produtos coloniais.

-Ela não era uma empresa comum. Recebeu do governo holandês muito poder:

-podia declarar guerra, firmar tratados,

conquistar e administrar territórios,

manter exército e marinha próprios. 

Era como se o Estado tivesse terceirizado a expansão imperial.
A WIC no Brasil: dentre seus objetivos,  pretendia expandir as conquistas territoriais,  atacar os engenhos, tomar o controle da produção açucareira e assumir também o  tráfico escravista português na África.

 

A PRIMEIRA INVASÃO: Salvador (capital da colônia): Na visão da WIC, atacar e tomar a sede do poder colonial significaria atingir o centro administrativo, fato que poderia desorganizar a defesa da colônia. O ataque ocorreu em 1624. O Exército da WIC ocupou a cidade, mas não conseguiu expandir-se. Os baianos fugiram e ocuparam posições nas matas, onde suas tropas  passaram a atuar através de emboscadas. Os holandeses ficaram limitados ao perímetro da cidade pois desconheciam o território. Quando tentavam sair, eram atacados de surpresa. Um ano depois, foram expulsos após a Espanha enviar uma tropa com cerca de 12 mil homens.

A SEGUNDA INVASÃO:

Em 1628, após o roubo de navios espanhóis carregados de prata na região do Caribe, a WIC passou a ter capital suficiente para financiar uma poderosa expedição militar contra Pernambuco, o maior produtor mundial de açúcar.

a) Em fevereiro de 1630, uma esquadra com 66 embarcações e 7.280 homens desembarcou em Pau Amarelo e conquistou Olinda e Recife. O governador Matias de Albuquerque, percebendo que não tinha condições de enfrentar os invasores em batalhas frontais, decidiu pela aplicação de estratégias:
1 - A Guerra de Emboscadas: consistia em ataques surpresa; era uma guerra “invisível”, onde os luso-brasileiros aproveitavam o fato de conhecerem bem o terreno para atacar e fugir, desaparecendo no meio do matagal. Matias aproveitou também para construir uma base fortificada, chamada de Arraial do Bom Jesus, o qual tornou-se o centro da resistência, funcionando como abrigo, quartel e ponto de organização das tropas. A partir do Arraial, suas tropas cercavam Olinda e Recife, impedindo que os holandeses avançassem para o interior e dificultando o acesso deles aos engenhos de açúcar.
2 - A política de Terra Arrasada: Consistiu na estratégia de incendiar canaviais, destruir engenhos, queimar estoques de açúcar e esconder ou queimar qualquer mantimento. A ideia era simples: não deixar nada útil para o inimigo. Sem açúcar, sem comida e sem recursos, os holandeses teriam dificuldade de se manter.
3- A Política de Alianças locais: Matias entendeu que se dependesse apenas de seu pequeno contingente militar, seria impossível vencer os batavos. Era preciso ter o apoio dos indígenas e dos escravos:
- Os indígenas tinham o conhecimento das matas.
- Os escravos já viviam em condições extremas de resistência física. Quando os engenhos foram destruídos, uma parte dos escravos fugiu e iniciou a formação do Quilombo dos Palmares. Outra parte foi convidada a aderir ao Exército de resistência.
Para conseguir a adesão de indígenas e escravos, Matias oferecia soldo e liberdade.  

 

Foi nesse cenário de guerra que surgiram personagens da resistência até hoje famosos:
a) Felipe Camarão: Foi nomeado Mestre-de-campo do Terço dos Índios (também chamado de Terço de Infantaria Nativa). Seus soldados recebiam soldo e tinham prerrogativas militares, o que elevava o status social do indígena.
b) Henrique Dias: Foi o comandante do "Terço de Homens Pretos. Ao oficializá-lo  como mestre-de-campo, Matias deu dignidade militar a ele e seus comandados, os quais também passaram a receber soldo.

-Para a Coroa, pagar o soldo era mais barato do que manter um exército mercenário europeu; para o soldado negro ou indígena, o soldo era a fronteira entre a escravidão e a cidadania. A promoção de Filipe Camarão e Henrique Dias passou a representar
- a participação mais ativa de negros e indígenas na história do Brasil;
- a luta por espaço, reconhecimento e, muitas vezes, liberdade;

- a complexidade de alianças num mundo ainda profundamente escravista.
É importante registrar que a WIC também usou essa estratégia de alianças, oferecendo promessas de liberdade e vantagens.

Períodos da ocupação holandesa em Pernambuco:

1 - Período da guerra e da resistência (1630 a 1637) - Os anos iniciais foram um desastre financeiro e militar para a WIC. Não conhecendo o território, ficaram isolados no Recife e em Olinda. Como o interior (onde estava o gado e as roças) era controlado pela resistência, os holandeses sofriam com a falta de víveres e o resultado foi a ocorrência de mortes por escorbuto, disenteria e febres.
O exército da WIC era composto majoritariamente por mercenários europeus, os quais não estavam acostumados a um cenário de guerra totalmente diferente, começando pelo clima tropical. Nas matas de Pernambuco, as táticas europeias de fileiras cerradas eram inúteis. Eles eram alvos fáceis para as emboscadas. Além disso, eram mercenários e lutavam por soldo: quando o pagamento atrasava ou a comida faltava, eram comuns as deserções.
Estando cercados, os holandeses decidiram incendiar Olinda e concentrar suas forças no Recife, junto ao porto. Olinda ficava longe do porto, foi construída sobre morros, suas ruas eram  estreitas e de difícil circulação de tropas e artilharia. Olinda foi arrasada em 1631 e o material dos escombros foi utilizado para erguer prédios no Recife.
Em Amsterdã, a WIC só contabilizava prejuízos, pois o investimento para montar a frota de 1630 foi colossal, e o retorno nos primeiros cinco anos foi negativo. Em vez de carregar navios com açúcar, a WIC precisava enviar navios da Holanda carregados de comida e munição apenas para manter os soldados vivos no Recife.
As ações da Companhia despencaram na Bolsa de Amsterdã.

A ajuda de Domingos Calabar
A partir de 1632, os holandeses contaram com a ajuda de Domingos Fernandes Calabar, um mameluco dono de engenho e comerciante. Ele não era militar, mas tinha grande conhecimento do território. Sabia quais rios eram navegáveis, onde ficavam os portos clandestinos e como desviar da fiscalização da Coroa Portuguesa, ou seja, ele operava no  mercado informal ou paralelo do contrabando de açúcar e fumo, os quais eram uma prática comum entre os colonos que queriam fugir dos impostos e do monopólio de Lisboa. Isso deu a ele um conhecimento geográfico da costa entre o Recife e Maceió que nenhum militar europeu possuía.
Ele ensinou aos holandeses como navegar pelos rios e onde atacar os pontos fracos da resistência de Matias de Albuquerque. Sem Calabar, é provável que a WIC tivesse abandonado Pernambuco antes mesmo da década de 1640. 
- Por que Calabar passou para o lado da WIC?

A tese mais aceita é a de que Calabar julgou que na WIC ele teria mais vantagens, pois os holandeses ofereciam melhores preços pelo açúcar, crédito mais fácil e uma frota mais segura. Para um comerciante como ele, a bandeira da Holanda significava "bons negócios", enquanto a de Portugal significava impostos e restrições. 
Além disso, ele julgou que, como informante de elite, teria provavelmente um status que jamais alcançaria na sociedade luso-brasileira (que o via como um "mestiço").

A Queda do Arraial do Bom Jesus: O Arraial dependia de uma linha de suprimentos que vinha do sul (Alagoas e Bahia). Calabar guiou os holandeses por caminhos de terra e canais fluviais para cortar os suprimentos que iam para o Arraial.
Sem alimentos e munição, Matias de Albuquerque ordenou o abandono e fugiu para a zona oeste, onde fundou o Arraial Novo do Bom Jesus, no atual bairro recifense dos Torrões, ficando ali até 1635, quando foi obrigado a fugir em direção a Porto Calvo (atual Alagoas), onde teve a sorte de encontrar, prender e executar  Calabar, que estava acompanhado de um pequeno destacamento holandês.
Após executar Calabar em Porto Calvo, Matias continuou a marcha para a Bahia com os sobreviventes do Arraial e as tropas de Henrique Dias e Camarão. Ao chegar a Salvador, em vez de ser recebido como um herói, foi acusado de incompetência. Em seguida, partiu para a Espanha, onde chegou a ser preso em Madrid. Em 1640, conseguiu fugir para Portugal, onde era considerado herói.  

2 - Fase de Nassau ou Período Nassoviano:
Após a vitória, a WIC decidiu nomear um governador com poderes extraordinários e perfil diplomático para administrar o Brasil holandês; sendo assim contrataram o nobre e militar alemão Johan Maurits Van Nassau (João Maurício de Nassau-Siegen), que governou entre 1637 e  1644.
Nassau administrou Pernambuco com uma visão de Estado, entendendo que, para a colônia lucrar, ela precisava de estabilidade e infraestrutura. Suas principais ações foram:
No campo econômico:
-Reestruturação e Crédito: reerguer os engenhos através da oferta de

empréstimos generosos aos senhores de engenho luso-brasileiros para que pudessem reconstruir as moendas, comprar escravizados e voltar a produzir açúcar. Isso criou uma "paz forçada", pois a elite local agora devia dinheiro aos holandeses. Os engenhos abandonados pelos donos que fugiram para a Bahia foram leiloados

- Abastecimento: Nassau incentivou o plantio de mandioca para evitar as crises de fome que assolavam o Recife, já que quase toda a terra era destinada ao açúcar.

- Modernização do Porto do Recife, o qual transformou-se no principal entreposto comercial do Atlântico Sul.

No campo religioso: mesmo sendo protestante, Nassau decidiu  pela tolerância religiosa, ou seja, em uma época em que ainda havia guerras religiosas na Europa, ele permitiu que os católicos pudessem continuar praticando o catolicismo (com algumas restrições a procissões externas).

- Proteção aos Judeus: Sob seu governo, os judeus sefarditas (muitos de origem portuguesa) puderam praticar sua fé abertamente. Foi nesse período que foi erguida no Recife a Kahal Zur Israel, a primeira sinagoga das Américas. 
Essa tolerância não era apenas "bondade", mas uma estratégia para evitar revoltas internas e manter os investidores judeus e os produtores católicos trabalhando em harmonia.
No campo administrativo:
Nassau mudou a face da colônia, iniciando com a decisão de tornar o Recife como a capital do Brasil holandês. Sendo assim, ele fundou a Mauritsstad (Cidade Maurícia), através da criação de uma cidade planejada, que contava com canais, ponte, jardim botânico, saneamento e limpeza urbana, algo raríssimo em cidades coloniais da época.

- Missão Artística e Científica: Nassau trouxe uma missão científica e artística, que contava com cerca de 46 intelectuais, entre pintores, médicos, astrônomos, cartógrafos e naturalistas. Nessa comitiva havia:
- dois excelentes pintores Albert Eckhout (especialista em retratar fauna, flora e os personagens da terra) e Frans Post (especialista em retratar as paisagens).
- o médico Willem Piso: considerado o fundador da medicina tropical...foi o primeiro a tratar a saúde no Brasil não apenas como uma extensão da medicina europeia, mas como algo que dependia do estudo direto do ambiente, das plantas e dos costumes locais. Ele produziu o primeiro registro científico sistemático do Brasil.
- A cartografia: através dos mapas e plantas baixas, os holandeses planejaram a drenagem, o traçado das ruas, a localização dos palácios (Friburgo e Boa Vista) e da primeira ponte do Recife. Esses mapas serviam também para atrair investidores europeus, mostrando que o Brasil Holandês era uma colônia organizada e civilizada.


- No campo militar: Sendo um militar experiente, Nassau empreendeu esforços para ampliar o território holandês ao norte e ao sul. No Norte, conquistando Paraíba, Rio Grande do Norte e o Ceará. No sul, ampliou os domínios até o limite do Rio São Francisco.

Em relação à África, Nassau enviou uma poderosa frota que tomou os principais entrepostos portugueses do tráfico de escravos. Efeito: Isso criou um sistema econômico transatlântico integrado sob controle holandês: o escravizado saía de Angola (controlada pelo Recife) para trabalhar nos engenhos de Pernambuco.

 

- A Pressão da WIC e a saída de Nassau: mesmo mantendo bom relacionamento com os luso-brasileiros, Nassau não conseguia agradar os acionistas e diretores resultados positivos imediatos. A WIC exigia inclusive que Nassau executasse as dívidas e tomasse os bens dos devedores. A demora de Nassau resultou em sua substituição.

A Restauração Portuguesa em 1640:  
Após 60 anos de domínio espanhol, período em que só acumulou prejuízos e guerras contra antigos parceiros, Portugal, aproveitando o momento em que a maior parte do Exército espanhol estava em envolvido em conflitos na Europa, declarou sua libertação, sob a liderança de D. João IV, da dinastia de Bragança. Esse evento foi chamado de Restauração Portuguesa.

Essa restauração teve o apoio da Inglaterra e da França, interessados em enfraquecer o poderio espanhol. A Espanha só viria a reconhecer a independência em 1668, através do Tratado de Lisboa. A Restauração marcou o o início da dinastia de Bragança.


O TRATADO DE HAIA
De imediato, Portugal decidiu fazer a paz com a Holanda, através do Tratado de Haia (1641), onde os lusitanos reconheciam temporariamente o controle holandês sobre o Nordeste brasileiro, desde que não houvesse mais expansões territoriais nem no Brasil nem sobre colônias portuguesas na África. A trégua permitiu que Portugal se reorganizasse internamente e fortalecesse sua posição na Europa. 

-A Restauração do Maranhão: A Holanda, mesmo assinando o Tratado, não o respeitou e decidiu ampliar seus domínios, conquistando Sergipe e o Maranhão, em 1641... No Maranhão, os batavos foram surpreendidos pela  forte resistência de portugueses, indígenas e jesuítas, que culminou na expulsão do invasor. A notícida da Restauração do Maranhão, uma região bem mais isolada do que Pernambuco, reforçou o ânimo das forças luso-brasileiras, que continuariam a lutar contra os holandeses em Pernambuco até sua expulsão definitiva em 1654. 

3 - Fase : A Insurreição Pernambucana (1645-1654).
Causas:
- Após a saída de Nassau, a WIC enviou  uma Junta administrativa com ordens expressas para executar dívidas e até tomar as propriedades dos devedores. Além disso, a nova administração proibiu o catolicismo.
- revoltados, os luso-brasileiros decidiram partir novamente para a guerra de resistência. Em 15 de maio de 1645, reunidos no Engenho de São João, dezoito líderes assinaram compromisso para lutar contra o domínio holandês, com ou sem a ajuda de Portugal, que estava em difícil situação econômica.  Naquele momento, em Portugal ainda havia o temor de uma invasão espanhola; a prioridade portuguesa era defender seu próprio território.

O Início da Luta em Pernambuco

Em 1645 começou a Insurreição Pernambucana, liderada por figuras como João Fernandes Vieira, Henrique Dias e Filipe Camarão. Nos bastidores, Portugal apoiava a insurreição.

A Batalha das Tabocas: ocorreu em 3 de agosto de 1645, no Monte das Tabocas, na cidade de Vitória de Santo Antão. Foi a primeira vitória militar da campanha da Restauração. Mesmo com um Os holandeses do Coronel Hendrick Van Haus eram mais de 1.700 homens, com armas de fogo, contra pouco mais de 1.000, com somente 230 armas. Parte dos brasileiros portava apenas lanças de madeira endurecida e/ou facões de trabalho. Mas os chefes João Fernandes Vieira e Antônio Dias Cardoso souberam utilizar com maestria o terreno irregular, a surpresa e as técnicas de emboscada e guerrilha.  Ao final do dia, Van Haus bateu em retirada, abandonou mortos, feridos e, principalmente, muito material de guerra.

 

A Batalha de Casa Forte e o Dezessete de Agosto: 

Após serem derrotados na Batalha das Tabocas no dia 3 de agosto de 1645, em Vitória de Santo Antão, os holandeses retornaram ao Recife e acamparam no engenho Casa Forte pertencente a Anna Paes, que estava casada com o oficial holandês Gilbert de With, alto representante da WIC. Os holandeses tinham capturado algumas mulheres parentes dos patriotas e as mantinham como prisioneiras no engenho. Ao saberem do que estava ocorrendo, os chefes João Fernandes Vieira, André Vidal de Negreiros, Henrique Dias e Felipe Camarão, arregimentaram seus homens, atacaram o engenho, venceram os batavos e libertaram as prisioneiras. A vitória em Casa Forte tornou famosa a data de Dezessete de Agosto, a qual dá nome à uma avenida no bairro de Casa Forte, no Recife.

 

A discreta ajuda portuguesa aos patriotas: Durante a Insurreição Pernambucana (1645–1654), Portugal ofereceu apoio discreto e indireto, para não romper oficialmente com a trégua que mantinha com a Holanda (Tratado de Haia, 1641). Portugal enviou navios com armas, munições e suprimentos para os rebeldes pernambucanos, de maneira discreta e clandestina., para não ser descoberto pelos holandeses. 

 

As dificuldades da Holanda: Entre 1652 e 1654, a Holanda também esteve em guerra contra a Inglaterra (Guerra Anglo-Holandesa). Este conflito dificultou sua capacidade de conter a Insurreição Pernambucana, pois lutava em duas frentes de guerra. A marinha inglesa frequentemente atacava navios da WIC em direção a Pernambuco, dificultando o envio de tropas, armas e alimentos para Pernambuco. Os custos dessa guerra para a WIC eram gigantescos e o resultado foi a sua falência,. Enquanto isso, os pernambucanos recebiam apoio luso-brasileiro, mesmo sendo pouco e discreto. 

 

As Batalhas dos Guararapes 

Foram episódios decisivos na Insurreição Pernambucana. Apesar de historicamente o Exército Brasileiro ter surgido muito tempo depois (só no século XIX),  vários autores defendem a existência de um elo simbólico entre ambos, já que brancos, negros, índios e mestiços juntaram forças pela libertação da sua terra. As Batalhas dos Guararapes quebraram o poder militar holandês, mas a rendição holandesa ainda levaria tempo para acontecer.

 

Guerra de Atrito e a Rendição Holandesa (1649–1654): também conhecida como guerra de exaustão, é uma estratégia  que visa enfraquecer o inimigo por meio de diversos ataques surpresas, curtos e repetidos. 

Mesmo derrotados, os holandeses resistiam no Recife enfrentando ataques constantes de guerrilhas luso-brasileiras. 

A resistência pernambucana criou um cerco prolongado, estrangulando Recife até a capitulação. A fome, as doenças, atraso dos salários, motins e deserções do exército holandês tornaram-se constantes. O processo foi lento, mas inevitável. Sem reforço de tropas, dinheiro ou apoio, o comandante holandês Sigismund von Schkoppe rendeu-se em 26 de janeiro de 1654, assinando a capitulação na Campina da Taborda. Por esta capitulação, os holandeses comprometeram-se a entregar não só o Recife e a Mauritzstad (Ilha de Antônio Vaz, hoje bairros de Santo Antônio e São José), mas também os fortes que ainda ocupavam na Ilha de Itamaracá, na Paraíba, no Rio Grande do Norte e no Ceará.

O segundo Tratado de Haia (1661)
Foi resultado de uma segunda rodada de negociações diplomáticas entre holandeses e portugueses. Os holandeses, ao serem expulsos do Nordeste, exigiram indenização. Portugal, em situação precária após a terrível aliança com a Espanha e com a constante ameaça de ter os portos bloqueados pelos batavos, aceitou pagar uma pesada indenização  (o equivalente a 2 milhões de cruzados) para ter reconhecida sua soberania plena sobre o Nordeste brasileiro. Ou seja:
- A maior parte do Nordeste foi tomada dos holandeses pelas forças luso-brasileiras e não por Portugal. Esse povo poderia ter criado um novo país, mas preferiu manter sua fidelidade à coroa portuguesa.
- Portugal pagou para ter paz com a Holanda e foi beneficiado pelo retorno do Nordeste brasileiro aos seus domínios. 

PERGUNTAS:
1) Explique as causas que levaram à formação da União Ibérica e suas consequências para Portugal.
2) Caracterize a economia holandesa no século XVII e explique por que ela era considerada uma das mais dinâmicas da Europa.
3) explique porque havia a guerra entre Holanda e Espanha e porque a Espanha impôs o embargo comercial?
4) Explique os papeis da WIC na invasão sobre o Brasil
5) explique as dificuldades da WIC durante a primeira fase da ocupação em Pernambuco
6) explique as estratégias de resistência de Matias de Albuquerque
7) explique porque a ajuda de Calabar facilitou a vitória da WIC
8) explique porque Nassau ficou e é famoso em Pernambuco até  os dias atuais
9) explique porque a WIC demitiu Nassau e porque após sua saída os luso-brasileiros decidiram pela Insurreição
10) Explique porque houve o Tratado de Haia e as causas que resultaram na vitória dos luso-brasileiros na Insurreição