A
BAIXA IDADE MÉDIA
Início: por volta do século X
Fim:
a tomada de Constantinopla pelos Turcos otomanos, em 1456 (século
XV)
Principais eventos
- A retomada do
comércio e o lento declínio do modelo feudal
- As
Cruzadas e a decadência da Nobreza
- A crise do século
XIV (fome, peste, revoltas camponesas)
- A Guerra dos Cem Anos,
o fim da Suserania e Vassalagem e o surgimento das monarquias
nacionais
O Início
Por volta do século X, o
processo de invasões dos povos germânicos (ou bárbaros) chegou ao
fim. Esse novo ambiente menos violento gerou uma reação em cadeia
que transformou a estrutura feudal:
- A retomada e expansão do
comércio: com mais segurança, o comércio renasceu e com ele veio
também o aumento de demandas (alimentos, roupas, ferramentas, etc.).
- O aumento da produção agrária: para suprir a demanda,
foi necessário investir em novas técnicas agrícolas: a rotação
trienal de culturas e o uso da charrua (arado de ferro).
- O
aumento da população: A maior produção de alimentos e a
diminuição da violência resultaram, nesse primeiro momento em um
forte crescimento demográfico.
- O modelo feudal em crise: a
economia feudal, baseada na autossuficiência, no consumo interno e
em pequenas trocas locais era inadequada para atender a forte demanda
comercial. Quando o comércio ressurge e as moedas voltam a
circular, a nobreza passa a ter uma nova visão mais comercial do uso
da terra, com o objetivo de lucrar e adquirir as cobiçadas
mercadorias do Oriente. Entretanto, a produção feudal baseada
na corveia e na talha, mostravam-se arcaicas e incompatíveis.
De
maneira geral, os nobres tomaram as seguintes decisões:
a -
dispensaram o excesso de servos.
b – arrendaram uma parte de
suas terras para ex-servos, que tornaram-se arrendatários.
A
Retomada e expansão do comércio: O excedente agrícola
estimulou o renascimento comercial e urbano, a criação de várias
rotas comerciais e de feiras, o retorno do uso das moedas e o
surgimento de uma nova classe social: a burguesia. Em suma, a
transição para a Baixa Idade Média resultou em uma lenta transição
de uma economia e sociedade agrária para uma economia e sociedade
mais comercial e urbana.
O feudalismo não
desapareceu imediatamente: Embora tenha ocorrido crescimento
do comércio, das cidades e das atividades monetárias, o modelo
feudal ainda continuou convivendo com estas mudanças, ou seja, dois
modelos econômicos continuaram existindo, um em decadência e o
outro em crescimento.
A transição da servidão
para o trabalho livre:
Mesmo com a expansão comercial, uma
boa parte dos camponeses ainda sofria com a servidão nos feudos.
Sendo assim, a baixa idade média contemplou as seguintes
situações:
1 - Camponeses arrendatários:
cultivavam terras pertencentes a senhores, mosteiros ou outros
proprietários. Dependendo do contrato de arrendamento, ele podia
pagar ao senhor em produtos ou dinheiro. Além disso, podia pagar
pelo uso dos equipamentos do senhor.
2 –
Camponeses assalariados: Trabalhavam em troca de remuneração
nas terras do senhor ou do arrendatário. A maioria enfrentava baixos
salários e dificuldades de sobrevivência.
3 – Servos do
feudo: Continuavam existindo durante a Baixa Idade Média, embora
sua importância variasse conforme a região.
O
Surgimento da Burguesia:
A Burguesia surgiu como uma classe social constituída por comerciantes, artesãos, banqueiros e prestadores de serviços urbanos que habitavam os burgos (cidades fortificadas). A sua riqueza (maior ou menor, pois havia diferentes níveis) não derivava da posse de terras nem da condição de nascimento, mas dos negócios, da circulação monetária e da economia urbana de mercado. Seu surgimento mudou a mentalidade medieval. Enquanto a Igreja ensinava que o tempo pertencia a Deus, os comerciantes encaravam o tempo como uma ferramenta para organizar o trabalho e ganhar dinheiro. Eles criaram novos valores, como o da importância do comércio, do trabalho manual, do registro dos contratos e o controle de seus ganhos com contas exatas. A burguesia mostrou que alguém poderia subir na vida pelo próprio esforço e riqueza, desafiando a divisão rígida do feudalismo, que dividia as pessoas para sempre entre os que rezavam, os que lutavam e os que trabalhavam.
Sua origem está ligada à crise de
superpovoamento dos feudos, fato que provocou a fuga ou a dispensa
dos servos. Para esses ex-servos, as opções de sobrevivência
passaram a ser:
Comércio ambulante
(mascates): passaram a circular transportando mercadorias,
criando ou reativando rotas comerciais locais e regionais.
Pequeno artesanato e serviços urbanos: Nos arredores
de castelos, mosteiros e antigas ruínas romanas (os burgos), os
ex-servos juntavam-se aos vilões (trabalhadores livres das vilas)
para atuar como padeiros, sapateiros, ferreiros, tecelões e
marceneiros, etc., produzindo não mais para a subsistência do
feudo, mas para a venda no mercado. Antes de se tornar um artesão de
fato, os servos passavam pelo processo de aprendizado, ou seja, eram
primeiramente aprendizes do ofício antes de se tornarem mestres.
Aventureiros, salteadores e marinheiros:
Eram indivíduos que conheciam diversas rotas através das
quais organizavam caravanas mercantis de curta, média e longa
distância. Para se proteger de saques e ataques nas estradas, esses
mercadores criaram associações de ajuda mútua que deram origem às
primeiras ligas comerciais e corporações de ofício.
Filhos da nobreza sem terra: devido à lei da
primogenitura, só o primeiro filho ficava com toda a herança
territorial do feudo. Aos demais filhos restava lutar pela
sobrevivência de diversas maneiras: podiam se tornar cavaleiros
mercenários a serviço de outros senhores ou do rei, buscar terras
em novas regiões ou em terras conquistadas em guerras, ingressar na
Igreja para seguir uma carreira eclesiástica, dedicar-se ao comércio
ou a atividades artesanais nas cidades em crescimento, ou ainda
partir em expedições e cruzadas na esperança de obter riquezas,
terras e prestígio. Sem a herança familiar, viam-se obrigados a
construir seu próprio caminho — e foi justamente essa nobreza sem
terras que impulsionou a expansão militar, o crescimento das cidades
e a reorganização social da Europa nos séculos finais da idade
média.
AS CRUZADAS
Foram
diversas expedições europeias ocorridas entre os séculos XI e XIII
com o objetivo inicial de libertar a Terra Santa (especialmente
Jerusalém) do domínio muçulmano. Ao todo, ocorreram oito cruzadas,
nem todas com a motivação inicial.
Causas:
-
Religiosa: O desejo de libertar Jerusalém do domínio dos Turcos
e garantir a segurança das peregrinações cristãs, impulsionado
pela promessa papal de indulgência plena (perdão de todos os
pecados) a quem lutasse. Na época, a peregrinação estava proibida
e quem tentava corria o risco de ser morto ou escravizado.
-
Demográfica: O crescimento populacional na Baixa Idade Média
gerou um excedente de camponeses sem terras e de nobres sem herança
(segundões). As Cruzadas funcionaram como uma "válvula de
escape" para essa pressão.
- Econômica: Em
uma época de crescimento econômico, as cruzadas algumas cidades
italianas (como Veneza e Gênova) em abrir e controlar rotas de
comércio no Mediterrâneo Oriental, além da busca da nobreza por
novas terras e riquezas.
- Políticas: A
Igreja pretendia unificar a nobreza europeia sob sua liderança e
reatar laços com o Império Bizantino após a Cisma do Oriente ( foi
o evento que dividiu a cristandade em 1054, quando o Império
Bizantino rompeu com a Igreja Romana e criou a Igreja
Ortodoxa).
Principais Consequências:
-
Reabertura e controle de rotas comerciais: As cidades italianas —
Veneza, Gênova e Pisa — assumiram o controle do comércio
marítimo, substituindo intermediários árabes e bizantinos
-
Portos e privilégios: Os ricos burgueses italianos conseguiram
armazéns, isenção de impostos e jurisdição própria em portos
conquistados do Oriente (Acre, Tiro, Jafa), criando redes comerciais
permanentes
- O fascínio das mercadorias orientais:
especiarias, sedas, açúcar, perfumes, tecidos finos e metais
preciosos passaram a chegar diretamente à Europa em maior quantidade
e a preços mais baixos
- Relação com o mundo islâmico: mesmo
com as diferenças religiosas, europeus e árabes mantiveram tratados
comerciais.
- O Saque de Constantinopla (ocorrido através de uma Cruzada em 1204):
Enfraqueceu o Império Bizantino e transferiu ainda mais poder e
riqueza para Veneza e Gênova
- Enfraquecimento do feudalismo:
Muitos nobres venderam terras, gastaram fortunas ou morreram nas
expedições — isso reduziu seu poder e contribuiu para o futuro
fortalecimento dos monarcas.
- Expansão da Burguesia: as
Cruzadas contribuíram significativamente para o crescimento do
comércio, pois era necessário alimentação, vestuário,
armamentos, cavalos, barcos, etc.
- Crescimento urbano: As
cidades mediterrâneas cresceram e se tornaram centros de riqueza e
poder, antecipando a transição para a Baixa Idade Média
-
Renascimento Cultural e Científico: O contato com o Oriente trouxe
de volta à Europa textos da filosofia grega preservados pelos
árabes, além de avanços da medicina, matemática, astronomia e
cartografia.
- Aprofundamento de Hostilidades: Consolidação de
uma profunda desconfiança e intolerância religiosa entre o mundo
cristão e o islâmico, além do agravamento da divisão com a Igreja
Ortodoxa (especialmente após o saque de Constantinopla na Quarta
Cruzada em 1204).
A
CRISE DO SÉCULO XIV
No século XIV tudo mudou: fome, doença e morte. Esse colapso, juntamente com a guerra dos Cem
anos iria contribuir para fortalecer as monarquias nacionais e sepultar o modelo feudal.
Causas:
1. Crise Climática
Até
o final do século XIII, o clima europeu mantinha uma estabilidade
que permitia colheitas abundantes. Na virada para o século XIV, o
clima mudou de forma abrupta: os verões passaram a ser curtos e os
invernos longos e bastante rigorosos, fatos que comprometeram as
expectativas de boas colheitas. Além disso, o solo de cultivo
mostrava-se cada vez menos fértil. O resultado foi catastrófico:
Menos sol, menos colheitas, menos grãos, menos alimentos, menos
produção de sal, menos ração animal, desabastecimento, inflação
elevada, desnutrição e fome. Entre 1315 e 1317 houve a Grande Fome,
que matou milhões de pessoas por fome e doenças causadas por ela.
Embora não haja exatidão nos números devido à precariedade da
documentação da época: estima-se algo em torno de 1,5 milhão a 3
milhões de pessoas, ou entre 7 a 10 milhões. Algumas fontes
mais amplas chegam a 7 a 10 milhões de mortos. Se a fome foi
devastadora, a Peste, que veio em sequência, piorou ainda mais a
difícil situação.
2. A Peste (1348–1350)
A
doença chegou provavelmente através dos ratos que infestavam navios
mercantes (nos ratos viviam pulgas infectadas por bactérias que eram
os vetores da doença). A falta de higiene e de saneamento facilitou
a rápida disseminação da doença, que matou entre 30% a 50% da
população europeia — regiões inteiras ficaram desertas. A
consequência mais profunda foi a falta de mão de obra para
trabalhar nos campos.
3. Tensão Social: as revoltas
camponesas
Com pouca mão de obra disponível, a
nobreza e os latifundiários passaram a oprimir os camponeses
exigindo mais produção. A resposta veio em forma de revoltas
camponesas: na França, foram chamadas de Jacqueries e na Inglaterra
de Wat Tyler.
A GUERRA DOS CEM ANOS (1337 -
1453):
Foi um conflito entre as coroas inglesa e francesa, cujo desfecho foi o fortalecimento das duas monarquias, ou seja, essa guerra sepultou a velha
tradição da suserania e vassalagem. Não foi uma guerra contínua,
mas uma série de campanhas e batalhas ao longo de
gerações.
Antecedentes e Causas:
1 -
Não existia nem Inglaterra nem França, nem a ideia de
pertencer a um país. A mentalidade da nobreza e do povo era pautada
por laços dinásticos, obrigações de vassalagem e rivalidades
pessoais. As pessoas não enxergavam a si mesmas como parte de um
povo unido — viam-se como súditas de um rei, habitantes de uma
região e cristãos.
2 - Na Inglaterra havia um pouco mais da
ideia de unidade por ser uma ilha; entretanto, a nobreza falava
francês enquanto o povo falava o inglês. A
lealdade era ao rei e não ao território.
3 - Na França havia menos unidade e a população se
identificava por região: normando, bretão, gasconho, borgonhês —
cada um com língua e costumes próprios. O próprio rei era visto
como o maior suseranos e não como chefe de um povo.
4 -A
suserania e vassalagem: O rei inglês Eduardo III, sendo vassalo do
rei francês Felipe VI, possuía territórios na França (Aquitânia,
Gasconha, etc.), recebidos como doação por sua fidelidade. A
Gasconha se destacava por ser uma rica região produtora de vinhos, e uma das maiores
fontes de rendas para a Inglaterra.
5 - O Estopim da
Guerra: Em 1337, o rei francês Filipe VI, de olho na rendas das Gasconha, ordenou o confisco da região, alegando que o
rei Eduardo III havia descumprido algumas obrigações de vassalo.
Para os ingleses, perder a Gasconha significava um desastre
financeiro.
6 - Pelo lado inglês, o rei Eduardo III não
aceitou o confisco e reclamava ser o legítimo herdeiro do trono
francês, alegando que Filipe VI ocupava o trono de forma ilegítima; sendo assim, não reconhecia as decisões do monarca.
O
período de Guerra: sua duração foi 116 anos — um longo
conflito que intercalou fases de tréguas, vitórias de ambos os
lados e a fase da peste bubônica. Na fase final, os franceses,
inspirados pela liderança e exemplo de Joana d'Arc conseguiram
vencer e expulsar os ingleses.
Consequências:
a -
fortaleceu o poder monárquico dos dois países
b - criou o
Exército nacional
c - unificou leis e impostos, facilitando o
comércio
d - implantou o nacionalismo: o sentimento de
identidade nacional (ser francês e ser inglês)
e - consolidou
a França como a maior potência militar europeia naquela época
f
- enfraqueceu a Inglaterra, que deixou de ser uma potência
continental após perder seus territórios no continente, fato que
provocou uma guerra interna (a guerra das duas rosas).
Resumindo: Ao final da Baixa Idade Média, o modelo feudal estava praticamente superado. As monarquias nacionais — francesa, inglesa, portuguesa e espanhola — estavam consolidadas, com poder centralizado, exércitos próprios e leis unificadas. O comércio renasceu e impulsionou o crescimento das cidades e a ascensão da burguesia. A Igreja atravessava uma crise moral após o Cisma do Ocidente (veremos esse assunto em reformas religiosas). Desse modo, nenhuma instituição escapou à transformação: os laços de vassalagem cederam lugar à identidade nacional, a economia de subsistência foi substituída pelo mercado e a autoridade religiosa passou a ser questionada.
História, Política, Economia, Cultura, Filosofia, Sociologia, etc.
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quarta-feira, 28 de outubro de 2026
A BAIXA IDADE MÉDIA
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