REVOLUÇÃO RUSSA
Foi o processo histórico que implantou o primeiro regime ditatorial baseado no marxismo, através do governo de Lênin, o criador do Leninismo (reinterpretação do marxismo). Lênin foi ditador entre 1918 e 1924. Após sua morte, o poder foi disputado entre Stálin e Trótski. Stálin venceu a disputa e implantou a segunda ditadura, conhecida como Stalinismo (1928 e 1953), comandando o regime até então mais autoritário da história: estima-se que entre 9 a 20 milhões de pessoas foram mortas sob sua ditadura, uma boa parte de fome através do terrível evento conhecido como Holodomor. Com o passar do tempo, Stálin perdeu o seu posto para aquele que é considerado o maior assassino da história: o ditador socialista chinês Mao Tsé Tung.
Para entender esta revolução, é preciso entender sua base ideológica, chamada de Marxismo.
INTRODUÇÃO AO MARXISMO
Conceito: é uma ideologia que defende basicamente o ideal da tomada do poder político e do poder econômico pela classe trabalhadora com o objetivo de implantar a igualdade social através de um regime ditatorial.
É uma ideologia criada principalmente pelo alemão Karl Marx, cujo verdadeiro nome era Moses Mordecai Levy, filho de um judeu-cristão.
A base do marxismo está em um antigo ideal ou sonho humano de criar uma sociedade igualitária. Vamos aos exemplos:
Sociedade Comunal Pré-histórica: os primitivos grupos humanos viviam em uma sociedade chamada de Comunal, onde partilhavam todos os poucos bens obtidos através da caça e da coleta.
Platão: Em A República, Platão já discutia a abolição da propriedade privada, visando o bem comum do Estado.
Aristóteles: Em seu livro Política, Aristóteles critica a ideia de partilha dos bens. Para ele, uma comunidade em que tudo é de todos não produziria propriedade comum e geraria negligência. Aquilo que pertence a todos, na prática, acaba sendo cuidado por ninguém. O ser humano, diz ele, se responsabiliza mais pelo que é seu do que pelo que é indistinto. A igualdade absoluta de bens, longe de eliminar conflitos, poderia multiplicá-los, pois disputas surgiriam sobre uso, acesso, trabalho e responsabilidade. Os virtuosos trabalhariam por todos, enquanto os "espertos" (hipócritas e aproveitadores da boa vontade dos outros) usufruiriam sem a mesma quantidade de trabalho. Aristóteles defende que a partilha de bens só daria certo se não fosse uma imposição estatal, mas um hábito moral, ou seja, compartilhar bens só teria valor ético se fosse fruto da escolha e não da coerção.
Cristianismo Primitivo: Entre os capítulos 2 e 4 do livro de Atos dos Apóstolos há diversas passagens referentes a uma prática da Igreja primitiva de repartir os bens conforme a necessidade de cada um. Muitos cristãos vendiam bens e traziam o valor arrecadado aos pés dos apóstolos, que os distribuíam entre os necessitados. Diferente do marxismo, não havia a tomada à força dos bens e os cristãos não eram forçados a entregar o que tinham, ou seja, não havia a abolição forçada da propriedade, mas sim uma resposta prática à necessidade: "e repartia-se a cada um, segundo a necessidade que cada um tinha". A entrega dos bens era voluntária e movida pelo Espírito Santo, e não imposta pela ditadura do partido.
Escavadores (Diggers): surgiram entre 1649 e 1651, dentro do contexto radical aberto pela Revolução Inglesa. Seu principal líder foi do puritano radical, reformador religioso, filósofo e político Gerrard Winstanley. Inspirado no cristianismo primitivo, ele e seus liderados defendiam o ideal da partilha da terra entre todos. A terra não deveria pertencer a indivíduos, mas à comunidade. A propriedade privada era vista como a raiz da desigualdade. Todos deveriam trabalhar juntos e compartilhar os frutos do trabalho.
Graco Babeuf: durante a fase do Diretório na revolução francesa, Babeuf (1707-1797) liderou a chamada Conspiração dos Iguais (1796), um movimento que defendia a igualdade econômica através de ações conspirativas, centralizadas e disciplinadas para tomar o poder político e o econômico.
A revolução deveria ser conduzida por um grupo consciente que agisse em nome do povo.
Com a ajuda de Friedrich Engels (ironicamente era filho de um rico industrial alemão), Marx criou uma ideologia que defendia uma reforma radical da sociedade através da classe operária (proletariado). Marx afirmava que essa reforma radical aconteceria primeiramente nos países que passassem pelas seguintes fases:
a) fosse industrializado
b) a classe operária tomaria consciência de que era explorada, se uniria, iria à luta e tomaria o poder político e o poder econômico.
c) A classe operária implantaria uma Ditadura sob o comando do proletariado (operariado), e faria reformas radicais na sociedade, através da violência, com o objetivo de implantar a igualdade social. Esse período de reformas passou a ser chamado de Socialismo, onde ainda seria necessária a desigualdade devido à presença do Estado gigantesco e autoritário, considerado necessário para eliminar toda a oposição e incorporar todas as propriedades, redistribuindo-as de maneira igualitária.
d) Após reformar a sociedade e implantar a igualdade plena, a Ditadura e o próprio Estado desapareceriam. Esta seria a fase final, chamada de Comunismo.
obs: é muito comum lermos diversas publicações chamando alguns países de comunistas (ex: Cuba, China, Coreia do Norte, etc.). Na realidade, estes países são ditaduras socialistas. O comunismo de fato nunca foi implantado e só existe na teoria.
A Reforma Radical promovida na fase intermediária (conhecida como Socialismo ou Ditadura do Proletariado)
Como ocorreria essa reforma radical?
1) A Ditadura do proletariado tomaria (e tomou) à força todos os meios de produção (a propriedade privada), ou seja, expropriou não apenas os empresários, mas toda a sociedade.
2)Todos os bens passaram a pertencer ao Estado. Sendo assim, o Estado passaria a ser o único detentor de todos os poderes, pois agora concentraria tanto o poder político quanto o poder econômico. É uma concentração de poder jamais vista na história humana. Nem os reis absolutistas tiveram tanto poder.
3) Empobrecimento Geral: Ao mesmo tempo em que o Estado tornou-se riquíssimo e poderoso, toda a sociedade foi empobrecida ao extremo. Ironicamente, a ideologia socialista que chama a burguesia de avarenta e exploradora, defende o mais elevado grau de avareza, através do controle e exploração total do Estado sobre a sociedade.
A concentração extrema da propriedade nas mãos do Estado produziu um efeito inverso ao prometido pelo discurso socialista, isto é, em vez de igualdade e justiça social, surgiria uma nova forma de desigualdade estrutural. Não há mais classe média. A sociedade divide-se apenas em duas classes:
a) a Elite dirigente do Estado, poderosa, dona de todo o poder político e econômico, tendo nas mãos o controle total sobre o povo.
b) o povo, empobrecido, sem nenhum poder político e econômico, condenado apenas à completa obediência. O controle deixa
de ser exercido “de baixo para cima” e passa a ser imposto “de cima para
baixo”, como uma sombra permanente sobre a vida social.
c) Nesse cenário, a sociedade empobrecida não é apenas privada de bens, mas também de voz. O empobrecimento material caminha lado a lado com o empobrecimento cívico. Não há cidadania, há apenas obediência cega, onde não se admite nenhuma crítica.
A propriedade não era apenas um bem material, mas um fonte de autonomia, segurança e liberdade individual. Quando essa autonomia desaparece, o indivíduo deixa de ser sujeito econômico e passa a depender das decisões de uma elite dirigente, que assume o papel de definir o destino dos bens e, por extensão, da vida social. O empobrecimento não é apenas material, mas também social e político. Uma sociedade sem propriedade privada é uma sociedade fragilizada, dependente e submetida à vontade de poucos. Ao eliminar a propriedade privada e concentrar os recursos, o Estado passa a concentrar também todo o poder político. Economia e política deixam de ser esferas em tensão e passam a funcionar como um bloco único, compacto, sem fissuras.
Quem controla os bens controla as decisões; quem controla as decisões controla o destino coletivo. O resultado é um poder que não encontra resistência. Não há mais oposição, transparência e controle social.
Sem oposição, não há pluralidade de ideias nem disputa de projetos.
Sem transparência, as decisões tornam-se opacas, tomadas nos bastidores do poder.
Sem controle da sociedade, o Estado deixa de responder aos governados. Forma-se, assim, um regime em que a elite dirigente governa sem prestar contas, pois não depende do consentimento real da população.
4) Toda a oposição seria perseguida: todos os partidos políticos, com exceção do partido comunista, seriam fechados. Qualquer pessoa que criticasse seria vista como uma ameaça e deve ser perseguida, presa e eliminada. Todos os meios de comunicação passaram a ser do Estado. Não existiria mais nenhuma liberdade de expressão, opinião, crença, etc.
5) Todos os que se opusessem à Ditadura seriam presos, podendo ou não ser remetidos para os campos de "reeducação" (que na verdade eram campos de trabalho forçado onde havia tortura e eliminação). Muita gente foi morta logo após a prisão, onde eram submetidos a uma sessão de tortura, julgamento sumário e execução.
6) Na visão marxista, esse regime brutal e desumano seria a única maneira através da qual a reforma radical seria implantada.
7) Na economia, a primeira consequência foi o empobrecimento de toda a população: foram expropriados de tudo a reforma consiste na estatização geral da economia, onde não existiria mais a empresa privada (indústrias, comércio, fazendas, etc.). Toda a economia passaria a depender de empresas estatais administradas pela ditadura do Partido Comunista. Todas as fábricas, todo o comércio, todas as fazendas seriam estatais e os trabalhadores seriam funcionários públicos. Até pequenos negócios e serviços, incluindo atividades autônomas como as de taxistas, serralheiros e eletricistas também foram estatizados. Esses trabalhadores foram forçados a se integrar ao sistema estatal, tornando-se funcionários de órgãos públicos ou cooperativas controladas pelo governo. O trabalho passou a ser rigidamente planejado, e os profissionais muitas vezes eram designados para funções específicas, conforme as necessidades do Estado. Todas as moradias foram expropriadas e cabia a um Comitê de burocratas do Partido Comunista decidir quantas e quais famílias ocupariam determinado imóvel. Entretanto, as moradias de alto luxo foram ocupadas apenas pela elite do partido, a qual passou a viver com muita regalia e privilégios...quem não conseguiu fazer parte dessa elite foi submetido às decisões do Comitê, que em geral, por exemplo, designava três famílias para ocupar uma casa que tivesse três quartos, por exemplo. Sendo assim, a igualdade só existia no papel e no discurso da Ditadura. O povo espoliado e emprobrecido não podia sequer reclamar.
Comunismo: o objetivo final
O comunismo marxista só existiu na teoria...na prática jamais foi implantado pelas Ditaduras pois isso significava abandonar todo o poder político e econômico. No mundo da ficção de Marx, o comunismo ocorreria quando a Ditadura, após fazer as reformas e implantar a igualdade, deixaria de existir. No mundo encantado comunista, as pessoas não seriam donas de nada porque os bens seriam de todos e todos deles partilhariam...ninguém trabalharia mais do que o outro, ao mesmo tempo em que ninguém trabalharia menos (não haveria preguiçoso nem mal intencionado)...não existiria justiça nem policiais nem cadeias, pois ninguém faria mal ao próximo...os profissionais de áreas que requerem muito estudo e responsabilidade, tais como médicos e engenheiros, ganhariam o mesmo que os demais e ninguém teria privilégio algum por ter estudado ou se dedicado mais do que os outros. Seria um mundo habitado apenas por pessoas abnegadas (pessoas que renunciam aos seus próprios interesses em prol de uma causa ou de um ideal), perfeitas, onde não haveria mais lugar para a mentira, a inveja, a avareza, vícios, preguiça, etc.
O erro de Karl Marx:
a revolução não ocorreu em nenhum país industrializado... por outro lado, ela ocorreu apenas em alguns países que iniciavam sua industrialização e a Rússia foi o primeiro deles. Qual a explicação? nos países desenvolvidos, a industrialização andou juntamente com políticas públicas favoráveis à liberdade democrática e econômica, à políticas públicas de bem estar social e a uma justiça eficiente, fatos que resultaram na melhoria das condições de vida da classe trabalhadora e o consequente desinteresse pela ideologia marxista.
Leninismo:
Vladimir Ilyich Ulianov, mais conhecido pelo pseudônimo Lênin ou Lenine, reinterpretou o marxismo, adaptando-o à realidade russa. Para Lênin, o marxismo errava ao prever uma revolução espontânea liderada pelos trabalhadores. Na sua visão era preciso uma forte liderança comandada por um partido centralizado e disciplinado para conduzir a revolução.
Principais diferenças e inovações do Leninismo:
- Ditadura sobre o proletariado através de um partido: Lênin defendia a ideia de uma forte liderança que guiaria a classe operária para fazer as reformas necessárias.
- Aliança operário-camponesa: Como a Rússia não tinha um proletariado numeroso, Lênin incluiu os camponeses, soldados e todos os que quisessem fazer a revolução. Foi assim que surgiu o símbolo comunista da foice e do martelo.
- Uso da violência revolucionária: Lênin justificava o uso da repressão e da ditadura do partido único para garantir a sobrevivência da revolução contra seus opositores.
REVOLUÇÃO RUSSA: Antecedentes / Causas da Revolução
ECONOMIA
No início do século XX, a base econômica russa ainda era de maioria agrária, embora o país já tivesse iniciado sua industrialização, onde havia inclusive a presença de capital estrangeiro (inglês, francês e alemão). No campo, prevalecia o latifúndio sob o comando de fazendeiros chamados de Kulaks (grandes, médios e pequenos produtores), os quais foram o principal alvo dos marxistas, acusados de toda a sorte de maldades contra os camponeses. Os dois grandes centros industriais da Rússia eram Moscou e São Petersburgo, entretanto, as condições de vida dos operários eram precárias (em todo país onde houve industrialização foi assim no início) e isso facilitava o discurso do movimento marxista.
POLÍTICA:
A Rússia era um regime absolutista em pleno início do século XX, chamado de Czarismo, comandado pelo Czar (ou Tsar). Não havia parlamento nem Constituição. O império abrangia diversos povos e territórios, incluindo poloneses, ucranianos, georgianos, armênios, bálticos, tártaros, finlandeses e asiáticos da Sibéria. Todas essas regiões eram subordinadas ao governo central em São Petersburgo. O império era dividido em governadorias controladas por governadores nomeados pelo czar. O império tinha uma religião oficial, a católica ortodoxa, embora outros credos fossem pemitidos. necessidade de ultrajar a família real e criar junto ao povo o gérmen anti-Romanov. Infelizmente foi esse o método usado pelas forças revolucionárias; a imagem de Nicolau II passou a ser objeto de zombaria e escárnio, não só com factóides e histórias milimetricamente inventadas, mas também alvo de um complexo jogo de intriga.
AS AÇÕES DO MOVIMENTO REVOLUCIONÁRIO
- Contra o Czar e a religião: sendo materialistas, uma das estratégias dos marxistas era solapar a imagem do Czar e a religião, tentando convencer o povo de que eram os principais sustentáculos do sistema opressor. A luta contra ambos fazia parte da estratégia para mobilizar as massas e criar uma nova sociedade que substituiria o Czar e a religião pela crença no deus Estado e no deus líder. Lênin afirmou que o Estado, sob a ditadura do proletariado, assumiria um papel semelhante ao de um "Deus" na vida das pessoas. Essa ideia estava ligada à visão marxista de que o Estado deveria ser um instrumento de controle total para transformar a sociedade.
- Atentados e Terrorismo: O Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR), fundado na clandestinidade em 1898, tinha na Organização de Combate SR o era o ramo terrorista dentro do Partido, a qual foi responsável pelo assassinato do ministro do Interior Vyacheslav Plehve (1904)
- em 1901 foi criado o Partido Social-Revolucionário (PSR), o qual usava terrorismo político (assassinato de autoridades czaristas). PSR e POSDR estiveram juntos até a criação da Duma, quando houve sérias divergências sobre o andamento da revolução.
- Propaganda e Conscientização Revolucionária: Lênin criou o jornal "Iskra" (A Centelha), que era distribuído clandestinamente para difundir ideias marxistas entre trabalhadores e intelectuais.
- Greves e Movimentos Insurgentes: Os marxistas incentivavam greves gerais e protestos operários, mesmo antes da formação dos sovietes (comitês de trabalhadores). O objetivo era enfraquecer a economia e o Estado russo, tornando-o incapaz de reprimir uma revolta maior.
- Lênin foi preso em 1895 por promover greves e tumultos e distribuir propaganda marxista entre os trabalhadores. Em 1897, foi condenado a três anos de exílio na Sibéria, onde ficou até 1900. Depois de cumprir a pena, Lênin fugiu da Rússia e viveu os anos seguintes na Suíça, Alemanha, França e Reino Unido, organizando o movimento bolchevique e publicando o jornal Iskra (A Centelha).
- A "Revolução em 1905" : foi um período marcado por intensos protestos, greves, tumultos e levantes armados, especialmente em São Petersburgo e Moscou. Foi causado pelo evento conhecido como Domingo Sangrento, cuja narrativa possui controvérsias, mas que na prática arruinou a imagem do Czar. Foi nessa revolta que surgiram os primeiros sovietes, mas Lênin ainda não os controlava.
O INÍCIO DA FRÁGIL DEMOCRACIA
O período parlamentar: em 1905, após um trágico evento em que reprimiu com violência uma manifestação pacífica do povo em frente ao seu palácio (conhecido como Domingo Sangrento), provocando milhares de protestos pelo país, o Czar Nicolau II, percebendo o desgaste de sua imagem, permitiu o início de uma frágil abertura política, através da criação de uma constituição e de um Parlamento (a Duma). Os marxistas agruparam-se no Partido Operário Social Democrata Russo, um nome de fantasia para o Partido Comunista. Entretanto, na Duma, os marxistas se dividiram em duas facções:
a) Mencheviques: eram a minoria do partido e defendiam reformas sociais lentas e graduais, sem violência, respeitando as leis e a democracia.
b) Bolcheviques: eram a maioria do partido e defendiam a tomada imediata do poder através da violência, independentemente de participação na política. Para os bolcheviques, a política partidária estava em segundo plano pois não havia nenhum vislumbre de se reformar a sociedade no curto prazo. Sendo assim, o mais importante objetivo era a tomada do poder por meios violentos.
A PRIMEIRA GUERRA ACELEROU A REVOLUÇÃO
A decisão do Czar de jogar a Rússia na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) facilitou o trabalho dos bolcheviques e sovietes, pois jogou o país no caos: derrotas humilhantes, grandes perdas humanas e materiais, desabastecimento, fome e inflação, exacerbando as tensões sociais que já existiam antes do conflito.
A Primeira Revolução: Fevereiro de 1917: O Czar é obrigado a renunciar. Os mencheviques, mais articulados na Duma, criam um governo provisório sob o comando de Alexsander Kerensky; entretanto, para decepção da maioria do povo, não retiram o país da guerra. Esta decisão serve aos interesses dos bolcheviques e sovietes, os quais são incentivados pelos discursos inflamados de Lênin (Paz, Pão e Terra) a se unirem e lutarem para derrubar o governo menchevique.
A Segunda Revolução: o golpe de Outubro de 1917: Foi resultado da aliança entre Bolcheviques e Sovietes. Ela ocorreu em 25 de outubro de 1917. Os bolcheviques prepararam o golpe com poucos dias de antecedência, aproveitando a decepção do povo com o governo menchevique.
- Lenin criou o Comitê Militar Revolucionário (CMR) para coordenar ações militares.
- Bolcheviques espalharam propaganda anti-governo e mobilizaram o apoio popular através dos sovietes.
- Os Bolcheviques contaram com apoio dos marinheiros da Frota Naval Militar da cidade portuária de Kronstadt
- O CMR ocupou pontos estratégicos em Petrogrado (atual São Petersburgo).
- Bolcheviques e marinheiros ocuparam o Palácio de Inverno, sede do governo provisório.
- Kerensky foge: O governo provisório se dissolveu, e Kerensky fugiu.
- Lênin assume o poder.
Lênin e o primeiro governo marxista da história (1918-1924):
As principais decisões:
- Negociação de paz com a Alemanha e saída da guerra
- fechamento da Assembleia Constituinte.
- Extinção dos partidos políticos e criação do Partido Comunista, o qual exercia controle total sobre toda a sociedade. Lênin exercia sua função de governate sob o título de Secretário Geral do Partido Comunista.
- Criação da Cheka (Comissão Extraordinária de Toda a Rússia para a Combate à Contrarrevolução e Sabotagem): foi a primeira polícia secreta russa. Reprimia qualquer um que criticasse o governo; todos os os opositores políticos e contrarrevolucionários foram reprimidos, perseguidos, presos, torturados, mortos, etc.
- Criação do Exército Vermelho: Força militar para defender a revolução.
- Nacionalização das empresas estrangeiras
- Estatização da Economia: todas as empresas privadas (grandes, médias e pequenas) passaram a pertencer ao Estado.
- Confisco de bens/fim da propriedade privada: Apropriação de todos os bens da população, incluindo terrenos, casas e apartamentos.
- Implementação da economia planificada: Planejamento centralizado da economia.
- Propaganda e Censura: A propaganda e a doutrinação foram maciçamente usadas para promover a ideologia e justificar suas ações. Além disso, a censura foi implementada para suprimir a oposição e controlar a informação disponível ao público. Tudo passou a ser censurado: jornais, livros, peças teatrais, etc. Todas as editoras e imprensas foram fechadas. Só a imprensa e a rádio oficial foram permitidas. Da mesma maneira, os filmes foram censurados. O cinema passou a ser um dos principais meios de propaganda oficial.
A Guerra Civil (1918-1921)
- Logo após as negociações de paz com a Alemanha, o povo russo imaginou que teriam um período de paz e prosperidade. Entretanto, as decisões de Lênin foram tão autoritárias que provocaram a Guerra civil, uma guerra que devastou toda a Rússia e matou milhões por fome e por bala.
As decisões do novo governo, principalmente no campo econômico, com a tomada da propriedade privada, provocaram a revolta de uma considerável parte dos russos, que não aceitavam perder tudo para o Estado. O país mergulhou numa guerra civil onde se destacaram dois exércitos:
a) Exército Vermelho:
Formado pelos bolcheviques e sovietes, sob o comando de Trótsky.
b) Exército Branco: Formado por czaristas, mencheviques e todos os opositores.
O Comunismo de Guerra durante a Guerra Civil:
foi uma política ainda mais radical implantada por Lênin, a qual tinha como objetivo central a manutenção do Exército Vermelho. As principais ações do Comunismo de Guerra foram:
- Recrutamento obrigatório
- Requisição forçada dos grãos de todas as fazendas. Quem fosse descoberto ocultando alimentos era executado.
- Troca direta/extinção da moeda: Produtos eram trocados por outros produtos ou serviços.
- Racionamento: Alimentos e produtos essenciais eram distribuídos mediante cartões de racionamento.
Consequências:
- Desabastecimento, Fome e escassez: A economia de guerra agravou a crise alimentar.
- Canibalismo: a fome e os mortos por ela era tão grandes que muitos russos recorreram ao canibalismo.
Coletivização e Controle Econômico: A economia foi centralmente planejada e controlada pelo estado. Através do Comunismo de Guerra, o governo tomou o controle direto da produção e distribuição de bens, forçando a coletivização do povo no campo.
O GOVERNO LÊNIN APÓS A GUERRA CIVIL E A NOVA POLÍTICA ECONÔMICA (NEP)
Com o país destruído, o governo de Lênin teve que tomar medidas contraditórias em relação ao seu discurso marxista: em 1921, Lênin anunciou a Nova Política Econômica, cujas principais características eram:
- diminuição das ações centralizadoras do comunismo de guerra
- permissão para algumas práticas capitalistas, ou seja, foi autorizada a existência de pequenas e médias empresas privadas
- A igualdade salarial foi proibida: os trabalhadores poderiam receber salários que variavam de acordo com sua capacidade produtiva. Lênin sabia que a produção no capitalismo é maior pois envolve o desejo de ganhar mais, enquanto no socialismo o trabalhador, produzindo muito ou pouco, recebia a mesma remuneração.
- Com o passar do tempo os efeitos da NEP indicavam que a situação econômica da Rússia estava melhorando, entretanto, com a morte precoce de Lênin, em 1924, a NEP foi descartada por Josef Stálin, o qual implantou o sistema de Planos Quinquenais e Economia Planificada.
STALINISMO: A DITADURA E O TERROR SOB O GOVERNO DE STÁLIN
1928 - 1953)
O governo de Stálin foi marcado por:
Repressão Política
1. Purgas: Execuções em massa de opositores políticos, intelectuais e militares.
2. Expurgos: Remoção de membros do Partido Comunista considerados desleais.
3. Repressão aos dissidentes: Perseguição a artistas, escritores e intelectuais que criticavam o regime.
4. Privilégios para um pequeno grupo da elite do Partido Comunista, que ficou conhecido como Nomenklatura, o qual desfrutava de regalias inimagináveis até para uma boa parte da burguesia.
5. Fim do direito de ir e vir: a implantação da Propiska, uma espécie de passaporte interno. Na prática, o povo estava proibido de se mudar de sua região para outra sem a autorização concedida pela autoridade local através da Propiska.
Violência e Repressão
1. Execuções: Estima-se 600.000 a 1.200.000 execuções entre 1936 e 1953.
2. Gulags: Campos de "reeducação", trabalhos forçados, escravidão, tortura e execuçõ: milhares de russos morreram de fome, tortura, doenças e trabalho forçado.
3. Tortura: Uso sistemático de tortura para obter confissões.
Controle Social
1. Censura: Controle rigoroso da imprensa e mídia.
2. Vigilância: Espionagem e informantes para monitorar a população.
3. Propaganda: Uso de propaganda para promover o culto à personalidade de Stálin.
Impacto Social e Econômico
1. Deslocamento de populações: Transferência forçada de grupos étnicos e minorias.
2. Fome e Genocídio na Ucrânia (Holodomor): cerca de 6 milhões de mortos
3. Economia planificada: Controle estatal da economia, levando a escassez e ineficiência.
Consequências
1. Morte de milhões: Estima-se 20-30 milhões de mortos.
2. Trauma social: Efeitos duradouros na sociedade soviética.
3. Deslegitimação do comunismo: Crise de confiança no sistema comunista.
RESUMO DA REVOLUÇÃO MARXISTA RUSSA:
ANTES: Autocracia Czarista, que caminhava lentamente para a democratização através da Duna e da constituição.
DEPOIS: Ditadura monopartidária comunista
ANTES: após 1905, monarquia constitucional
DEPOIS: Regime Opressor a partir de outubro de 1917
ANTES: democracia em fase de construção com pluripartidarismo e parlamento
DEPOIS: Não havia democracia: era um parlamento de um só partido.
ANTES: pouca liberdade de expressão (após 1905, na fase de constitucionalização do país)
DEPOIS: Não havia liberdade de expressão
ANTES: Muita corrupção e privilégios da nobreza
DEPOIS: Muita corrupção e privilégios da Nomenklatura.